Movimentos dos EUA vão compondo uma espécie de avanço na
América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da
região
O novo tarifaço decretado
pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente
tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na
corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês
no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa
Branca.
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo
diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de
Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai
além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que
está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A
postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como
houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente
brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano
em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio
econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e
Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O
ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra
ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar
no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que
potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na
visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a
autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União
Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério
Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio
Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para
falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de
argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o
vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para
prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para
Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para
Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira
vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário
brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica
que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia
desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política
que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para
resolver o estrago.

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