Em inglês, 'to peak', picar, é chegar ao pico, ao máximo;
e se o Brasil já tiver picado?
Ou se, com os bolsonaros, vorcaros, malafaias e neymares,
o Brasil estiver picando hoje?
Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros
e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa
atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam
como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo
lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos
assim, mas poderíamos —e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do
futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já
tiver picado?
Ivan
Lessa, arguto pensador popular, era dessa opinião. Para ele, o Brasil picou
em algum momento entre os anos 1950 e 1960 —de Juscelino a, digamos, 1963. Foi
quando tivemos vasta industrialização, urbanização e politização; o país
começou a ser exaustivamente "pensado"; a criatividade em todas as
categorias chegou a níveis absurdos; éramos adultos, responsáveis e otimistas;
e tudo num clima de total liberdade democrática. Claro que esta é só a opinião
de Ivan Lessa. Outros poderão atribuir outras épocas ao pico do Brasil. O que
interessa é se o Brasil ainda tem jeito ou se já picou mesmo.
Desiludido, Ivan se mandou para Londres em 1978 e morreu lá,
em 2012. Imagino se soubesse do Brasil de hoje, o paraíso dos bolsonaros,
vorcaros, malafaias, neymares e outros luminares, dedicados a nos fazer de
otários em primeiro grau. Eis alguns:
Políticos ligados a milicianos e facções. Influenciadores
promovendo estilos de vida irrealizáveis. "Consultores" financeiros
recomendando investimentos com lucros fabulosos em ativos sem lastro na
economia real. Vendedores de cursos online sobre como ficar rico. Aliciadores
de menores na internet. Sem falar em torcedores não
mais de futebol, mas de "fubetol" (obrigado, Sérgio Rodrigues),
cantores de sofrência pagos em milhões por prefeituras de cidades sem escolas e
hospitais; mulheres com peitos pneumáticos, boca de peixe e bochechas de Fofão;
etc.
Dúvida atroz: e se, em vez de ter picado no passado, o
Brasil estiver picando agora?

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