Ex-primeira-dama investe em imagem de liderança que foi
além do sobrenome e cavou seu próprio espaço
Ao repudiar, num jogo combinado, o libelo medieval de Paulo
Figueiredo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marchou para preservar alguma
chance numa disputa em que o voto das mulheres predomina. A dúvida é se será
suficiente. Não apenas para destronar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
mas também para evitar a fagocitose do espólio bolsonarista.
Desde 2018, o bolsonarismo tornou-se o vetor da direita. O
que Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama estão a fazer é a fratura não apenas
deste campo mas do próprio bolsonarismo. Superaram as desavenças do pós-lulismo
com o esgarçamento antecipado do pós-bolsonarismo. E, como é do seu feitio,
pelas redes sociais.
Michelle escolheu suas armas. Deixou a
presidência do PL Mulher mas não abandonou os planos de fazer bancada no PL.
Ameaça os próprios enteados na disputa pelo espólio do ex-presidente com um
discurso de quem foi além do sobrenome ao enfrentar o machismo.
O marido, de cujo sobrenome não pode abrir mão, ainda não
escolheu o lado. Se o fez, não tem como anunciá-lo, a não ser por porta-vozes
enviesados. Como prisioneiro, não pode se pronunciar, a não ser que venha a ser
autorizada uma entrevista - hipótese remota durante a campanha. Como está
casado e em prisão domiciliar, é Michelle quem, por ora, detém a guarda.
Em 2022, a então primeira-dama já tinha sinalizado a
estratégia que agora aprofunda. Naquele ano, duas ministras do governo
Bolsonaro postulavam a única vaga pelo Senado no Distrito Federal, Damares
Alves e Flávia Arruda. Derrotada em sua tentativa de fazer o marido apoiar
Damares, não entrou na campanha à reeleição no primeiro turno. Deixou para
fazê-lo apenas no segundo, depois de eleger sua aliada, pelo Republicanos.
Não se desviou da rota. Foi a presidente do PL Mulher SC e
sua aliada de primeira hora, a deputada estadual do PL de Santa Catarina, Ana
Campagnolo, quem liderou o movimento contrário ao alijamento da deputada
federal Caroline de Toni (PL-SC) da disputa pelo Senado. Como Carlos Bolsonaro
não arredou o pé da transferência de seu domicílio eleitoral do Rio para Santa
Catarina, sobrou para o senador Esperidião Amin (União-SC), que perdeu o apoio
da família em sua campanha à reeleição.
A estratégia de Michelle ainda embute uma ofensiva tão
agressiva quanto a dos enteados, só que muito mais cifrada. Horas antes da
veiculação do vídeo-bomba, mandou um sinalizador para Flávio Bolsonaro. A
ex-primeira-dama publicou nas redes sociais, numa modalidade em que as
publicações somem em 24 horas, foto com “pessoas mais que especiais” em que
está Martha Seillier, economista, ex-diretora do BID e mãe de uma criança cuja
paternidade foi assumida por Carlos Bolsonaro.
Ao investir na cisão com os enteados, Michelle estará a
cavar um destino semelhante àquele da ex-deputada Joice Hasselmann, relegada ao
esquecimento? Tudo pode acontecer, mas há três diferenças: (ainda) é casada com
Bolsonaro, tem seu grupo político dentro do PL e conta com o apoio do
presidente do partido.
Valdemar Costa Neto equilibra-se em suas declarações, mas
deixa digitais em todo lugar. Há menos de dois anos, foi obrigado a criar a
Secretaria de Relações Internacionais do PL para abrigar o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro e suas pretensões de protagonismo no partido. Semanas atrás, no auge
da repercussão dos indícios de que o financiamento do Master para o filme “Dark
Horse” embutia caixa 2 para a campanha de Flávio, declarou publicamente que o
fundo eleitoral não seria suficiente para bancar as candidaturas do partido nos
Estados.
Foi além. Franqueou condições para a ex-primeira-dama
recrutar pré-candidaturas de mulheres evangélicas, negras e de periferia à
Câmara. E, finalmente, extinguiu o cargo de presidente do PL Mulher como se
estivesse a homenagear uma insubstituível Michelle.
A reação à ex-primeira-dama é comandada por uma estrutura
que mimetiza, no exterior, o “Gabinete do Ódio” que funcionou no Palácio do
Planalto durante o governo Jair Bolsonaro. Com integrantes espalhados pela
Austrália, Polônia e EUA, investe na estratégia de mudar o foco quando se faz
necessário. Não é uma investida ideológica mas utilitária da pauta.
Jogaram os holofotes no “feminismo marxista” porque
precisavam tirar o foco colocado por Michelle nos palanques estaduais,
simbolizado pelo Ceará, para que as chapas possam ser montadas sob menos
pressão. Agora Flávio Bolsonaro se dissociou do mulher-não-sabe-votar e investe
no todo-poder-às-mulheres para correr atrás do prejuízo.
Parece improvável que o gabinete do ódio foragido aposte, de
fato, na transposição do movimento americano que pretende acabar com o voto
feminino para um país em que as periferias são tomadas por mulheres que começam
a trabalhar cedo e tornam-se responsáveis pelo sustento de suas famílias quando
abandonadas ou ameaçadas.
A alternância de pauta que, ao longo da última década, teve
como alvo principal o PT agora se volta para sua própria disputa interna. Com
adversários em fagocitose, a campanha petista joga parada, o que não significa
que tenha caminho desimpedido até outubro. O pior que pode acontecer para Lula
é que sobreviva Michelle. É de direita a primeira liderança feminina da
política nacional nascida na periferia.

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