O mercado de trabalho está esfriando? Um fenômeno põe em
xeque os indicadores
Alguns economistas observam que empresas não estão
contratando - e, portanto, deixando de criar vagas - porque há uma escassez de
trabalhadores disponíveis
Quando os dados do Caged sobre a criação de postos de
trabalho em maio vieram muito abaixo do consenso das estimativas dos analistas,
houve quem dissesse que, finalmente, o mercado de trabalho estava esfriando,
refletindo uma desaceleração da atividade econômica em linha com o cenário
traçado pelo Banco Central. Mas será mesmo?
Só para lembrar: em maio, segundo o Caged, a economia
brasileira registrou a abertura de 72.960 postos de trabalho, enquanto os
analistas previam a criação líquida de 120 mil vagas. Foi o menor saldo para
meses de maio desde 2020.
O que alguns economistas vêm defendendo é
que, ao contrário do que possa parecer, o número mais baixo de vagas formais
criadas é resultado de um mercado de trabalho ainda aquecido e de uma atividade
econômica resiliente. Na avaliação deles, os últimos dados do Caged refletem
uma restrição na oferta de mão de obra: empresas e indústrias brasileiras não
estão contratando – e, portanto, deixam de criar vagas – porque há escassez de
trabalhadores disponíveis. Tudo isso ocorre em um cenário de taxa básica de juros
de 14,25% ao ano, de um lado, e de forte estímulo fiscal promovido pelo
governo, de outro.
A taxa de desemprego, de 5,6% no trimestre encerrado em
maio, segue próxima do menor nível da série histórica. Há, inclusive, menos
desocupados no País hoje (5,9 milhões) do que em dezembro de 2014 (7,1
milhões), ao fim do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, apesar do
crescimento da população nesse período. No fim do primeiro trimestre deste ano,
apenas 0,6% da força de trabalho desocupada procurava emprego havia entre um e
dois anos, enquanto 1% buscava uma vaga havia mais de dois anos. No auge da
pandemia de covid-19, no segundo trimestre de 2021, 3,6% dos desempregados
estavam nessa condição havia mais de dois anos.
Outro indício da escassez de mão de obra é o porcentual de
desligamentos a pedido sobre o total de desligamentos. Em geral, quem pede
demissão o faz porque encontrou uma oportunidade com remuneração maior ou
porque acredita que conseguirá se recolocar com facilidade. Em maio, segundo o
Caged, 36,1% dos desligamentos ocorreram por iniciativa do trabalhador. Em
igual mês de 2025, esse porcentual foi de 35,9%. Em maio de 2021, era de 29,5%.
A massa de rendimento real do trabalho – resultado da
combinação entre emprego e rendimento médio – acumulou crescimento de 6,1% nos
últimos 12 meses. Não por acaso, ao menos nos níveis salariais que podem ou
estão dispostas a oferecer, muitas empresas seguem com dificuldade para
preencher vagas abertas.
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