Tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio
reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível
Até hoje reverbera na comunidade diplomática a declaração de
Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan), chamando o presidente Donald Trump de “papai”.
Aconteceu durante a cúpula da Aliança Atlântica em Haia, em
meados de 2025. Rutte já vinha sendo alvo de críticas por não poupar elogios ao
americano, a quem chamava de “querido Donald”, mas naquele momento foi além.
Em um instante de descontração flagrado pelas câmeras, os
dois conversam animadamente e Trump comenta a reprimenda que dera na véspera em
Israel e Irã: para o republicano, os dois países do Oriente Médio se
comportavam como crianças no pátio de uma escola. Com um palavrão, afirmou que
eles não tinham noção do problema que estavam criando. E o europeu então
emendou, concordando que em algumas ocasiões “papai” precisava usar uma
linguagem mais dura.
Rutte tentou depois se explicar. Argumentou
que usou a palavra “papai” porque às vezes ouvia líderes europeus questionando
se os Estados Unidos permaneceriam na Otan, o que lhe soava como uma criança
pequena perguntando ao pai se ele ainda ficaria com a família. Mas o estrago já
estava dado, a ponto de nos bastidores diplomatas passarem a usar as expressões
“daddy diplomacy” e “daddism” para qualificar a política externa daqueles que
bajulam Trump com o objetivo de conter danos.
A história voltou a circular nos últimos dias, com o avanço
das investigações comerciais conduzidas pelo Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), impulsionando as
discussões sobre política externa nesta etapa preliminar da campanha eleitoral.
Há tempos isso não acontecia, o que inclusive levou o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) a tentar reposicionar-se nessa arena.
Fruto de pressão bolsonarista por questões políticas, o
tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a
política externa havia se tornado uma área sensível para sua campanha.
Flávio, aliás, chegou a cogitar seu irmão Eduardo para o
Itamaraty. Teve que modular o discurso. Nos últimos meses, reuniu-se com os
presidentes dos Estados Unidos, Argentina e Chile, por exemplo, para demonstrar
uma capacidade de interlocução com o exterior que o seu pai não manteve quando
presidente. Por outro lado, ainda não conseguiu reduzir o peso da ala mais
radical do bolsonarismo entre seus articuladores internacionais e busca mitigar
os efeitos negativos do memorando apresentado na semana passada ao próprio
USTR, no âmbito da Seção 301, por meio do qual argumenta que a aplicação de uma
tarifa de 25% deve ser adiada para depois das eleições. Para ele, a cobrança
acabaria por beneficiar Lula.
Pode-se dizer, contudo, que pelo menos este é o primeiro
documento assinado pelo principal pré-candidato da oposição com pistas sobre
sua política externa.

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