O presidente dos EUA é o primeiro líder de um país desde
Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a
Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa)
Podemos chamar de toque de Midas às avessas. Donald
Trump adora ouro. No entanto, tudo o que ele toca, desde espelhos d'água
até alianças dos Estados Unidos, parece virar outra coisa. Sua última
incursão foi na Copa do Mundo. Um torneio que vinha se mostrando um
inesperado sucesso desandou depois de Trump ligar para a Fifa, que, em
seguida, anulou a suspensão por um jogo de Folarin Balogun, uma
das estrelas americanas. Os EUA, de qualquer forma, perderam por 4 a 1
da Bélgica.
A intervenção de Trump na Fifa, comparada a seu ímpeto
incansável para multiplicar a fortuna da família ou a seus atos
de guerra ou paz, poderia ser classificada como apenas uma nota
de rodapé. Ainda assim, é possível apostar com tranquilidade que esteve entre
suas atitudes de maior visibilidade no palco mundial.
Boleiros estão acostumados a decisões
discutíveis dos árbitros. A ocasião anterior em que um cartão
vermelho foi revertido em uma Copa por pressão dos altos
escalões foi em 1962, no Chile, anos antes do nascimento do atual presidente
da Fifa, Gianni Infantino. Trump é o primeiro líder de um país
desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua
seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa).
A opinião pública mundial também voltou suas atenções para
Infantino, que é uma espécie de sósia de Trump no mundo dos esportes. Um grupo
ativista apresentou uma denúncia, em estilo de ação coletiva, contra a Fifa por
violar as próprias regras de neutralidade política.
O presidente suíço-italiano da Fifa já compareceu à posse de
Trump, alugou escritórios na Trump Tower em Nova York, concedeu a ele o
primeiro Prêmio da Paz da Fifa — depois de fazer lobby, sem sucesso,
para que Trump ganhasse o Nobel da Paz — e esteve envolvido no Conselho da
Paz de Trump. Nenhuma outra figura do esporte foi convidada. Infantino
apareceu na primeira reunião dessa entidade com um boné vermelho do movimento
Maga.
Amizades com autocratas que gostam de presentear
A característica mais marcante compartilhada por ambos é a
preferência por autocratas e a má relação com sociedades baseadas no Estado de
Direito. Da mesma forma que Trump prefere lidar com países governados por
famílias, em especial no Golfo Pérsico, Infantino também transita em
círculos similares. Trump recebeu do Catar um avião Boeing avaliado
em US$ 400 milhões. Infantino viaja pelo mundo em um avião fornecido pelo mesmo
emirado.
Ele também tem um gosto especial por desfiles em comboios
oficiais. A Nova Zelândia recusou seu pedido para que um fosse realizado
durante a Copa do Mundo feminina de 2023; a cidade de Vancouver também disse
"não" quando foi sede de uma reunião da Fifa em abril. Os leitores
podem imaginar quais países concedem tal privilégio a Infantino. Ele passou por
cima do processo seletivo da Fifa para assegurar que a Arábia
Saudita fosse a única candidata à sede da Copa do Mundo de 2034 (o Catar
recebeu a de 2022).
Assim como Trump, Infantino é quem faz tudo em seu
espetáculo. Os vice-presidentes da Fifa não foram consultados sobre o prêmio
criado às pressas para Trump em dezembro. “O mundo é um lugar mais seguro
[graças a Trump]”, disse Infantino ao entregar a medalha de ouro. Os dois
também aprovam Vladimir Putin, que concedeu a Infantino a Ordem da
Amizade da Rússia após o país ter sido a sede Copa do Mundo de 2018.
Cada um fomenta seu próprio culto à personalidade. “Somos
testemunhas de uma nova era”, diz uma nova inscrição no troféu da Copa. “A era
de ouro do futebol de clubes [...] Inspirada pelo presidente da Fifa, Gianni
Infantino”"
Pra lá da "linha vermelha"
E ambos são repudiados pelos mesmos países. A Uefa,
entidade que rege o futebol europeu, acusou a Fifa de ter cruzado uma “linha
vermelha” ao anular a suspensão de Balogun.
Na Europa e no Canadá, as ações de Trump
costumam causar desconcerto. Não houve, entretanto, um coro de condenações
europeias quando agentes de Trump deportaram um árbitro somali, proibiram
a seleção do Irã de passar a noite em solo americano e atrasaram
vistos e a entrada de jogadores do Senegal, Haiti e Iraque.
Esse tipo de tratamento, infelizmente, já era esperado.
Embora a maioria das pessoas do mundo tenha tomado
conhecimento das manobras de Trump na Fifa, o grosso da indignação veio de
outros países ocidentais — somados a alguns solitários progressistas americanos
que censuraram a interferência dele. Por sua vez, a maioria dos americanos,
inclusive muitos críticos de Trump, desta vez, pareceu satisfeita com a
distorção das regras. No fim das contas, a jogada de Trump revelou-se inútil.
Agora, os americanos “hifenizados” [aqueles que têm origem estrangeira] já podem
torcer por suas outras seleções.
Trump e Infantino sabem instintivamente algo que seus
críticos muitas vezes esquecem — as pessoas são capazes de perdoar muita coisa
se você conseguir mantê-las entretidas. Não ligue para hipocrisias sobre o
futebol unir povos ou promover a paz; o confronto entre seleções nacionais é
uma guerra por outros meios.
Se os EUA tivessem derrotado a Bélgica com a ajuda do pé
direito de Balogun, haveria muitas vaias do outro lado do Atlântico. Trump
prejudicou seriamente o “soft power” dos EUA. No entanto, para o resto do
mundo, essa indignação é apenas mais do mesmo. Os EUA sempre fizeram o que
puderam e os países menores sempre sofreram o que tiveram de sofrer.

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