Temos de deixar de ser meros usuários de modelos
estrangeiros
Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou
que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao
governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a
OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela
administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da
esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas
de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a
proposta é do senador Bernie Sanders).
A proposta está ainda em fase inicial, mas
deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil —
países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a
depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do
desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes
recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump
proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo
Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de
exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros
maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta
semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e
depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria
concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por
preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados
Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e
estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro.
Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não
acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o
ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia
terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o
incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando
conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz
varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica
segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento
estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013
mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é
especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo
americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o
Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente
mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à
tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a
cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos
próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer
movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos
estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura
própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso
implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos
públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter
laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos
chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam
com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania
tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa
ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E
a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a
Presidência da República.

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