A IA está mudando a economia mundial, mas para isso usa
uma quantidade gigantesca de capital
Durante anos fomos levados a acreditar que a economia
digital era leve: o termo usado era ‘nuvem’; descobrimos que a nuvem pesa
milhões de toneladas de concreto, em data centers
Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura
e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA)
consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria
exagero. Mas não é.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data
centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que
todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo.
Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo
usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.
A inteligência artificial está revelando o
contrário. Descobrimos, agora, que a nuvem pesa milhões de toneladas de
concreto. Não estamos falando apenas de algoritmos. Mas de usinas de energia,
linhas de transmissão, data centers, sistemas de refrigeração, cabos
submarinos. A IA deixou de ser apenas software. Tornou-se uma das maiores obras
de infraestrutura econômica do século 21.
Um exemplo foi o anúncio da Meta, que vai investir US$ 9,1
bilhões no primeiro grande data center no Canadá, com potência de 1 gigawatt,
expansível para 1,8 GW, e para isso precisará de uma usina própria movida a gás
natural. Uma única instalação de IA já exige infraestrutura energética
comparável à de uma cidade.
Até recentemente a pergunta era qual seria a produtividades
trazida pela IA. Agora, surge outra, talvez mais incômoda: como essa
infraestrutura será financiada – e se ela será capaz de gerar retorno
compatível com o volume de capital que está absorvendo.
Em seu último relatório semestral, a OCDE afirma que a
economia mundial ainda parte de uma base sólida com os investimentos em IA. Mas
esse ponto precisa ser visto com cuidado. Diante da desaceleração global
apontada pelo FMI, os investimentos em IA não eliminam os riscos nem impedem a
perda de ritmo da economia. Funcionam como um dos principais amortecedores da
desaceleração. E aqui surge um paradoxo.
O mesmo ciclo de investimentos que ajuda a manter a economia
em movimento também pode se transformar em fonte de instabilidade financeira.
Talvez estejamos diante de duas revoluções distintas. A primeira, é
tecnológica. A segunda, financeira.
A IA já está transformando a economia mundial. Mas, para
fazê-lo, exige uma quantidade gigantesca de capital físico e financeiro, antes
que seus retornos estejam plenamente comprovados. Nesse momento, o entusiasmo
costuma ser mais acelerado do que o cuidado de medir riscos. A IA mudará o
mundo, com certeza. Mas isso nos traz uma pergunta: qual parte dessa
infraestrutura permanecerá quando a euforia passar – e quem vai pagar a conta
até lá?

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