O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de
análise política
Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no
Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições
democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise
política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro
do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar
suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de
ataques — que envolveu até operação da Polícia
Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar
— deu na inelegibilidade de Jair
Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo
por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.
O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública
global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele
atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022,
antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio
Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em
defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
— Brasileiras e brasileiros, diálogo e
negociação são normais nas relações diplomáticas, violência e arbítrio, não!
Nossa soberania é inegociável. Quando a nação é atacada, devemos deixar nossas
eventuais diferenças políticas para defender nosso maior patrimônio.
Sujeitar-se a esta coação externa significaria abrir mão da nossa própria
soberania, pressuposto do Estado Democrático de Direito, e renunciar ao nosso
projeto de nação — dizia a carta tornada pública na ocasião.
O texto elaborado para aquele levante pode, sem ressalva,
ser repetido agora, quando a democracia brasileira é, de novo, empurrada para o
corner. Desta vez, o risco se apresenta numa aliança da extrema direita local
com a internacional. Nos últimos meses, não apenas foi sepultada a relação
cordial que Lula e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos,
ensaiavam desde setembro de 2025. É evidente também o conjunto de iniciativas
para estressar relações bilaterais com sanções econômicas e ofensas políticas;
tensionar a convivência do bolsonarismo com o Judiciário; minar a legitimidade
do pleito de outubro.
Em duas semanas, os Estados Unidos taxaram duas vezes o
Brasil, em 25% e 12,5%, por motivação mais política que técnica. Postagem do
próprio secretário de Estado, Marco Rubio, compartilhada pelo senador Flávio
Bolsonaro, não deixou dúvida. No último sábado, os ataques do presidente
argentino a Lula e ao ministro Alexandre
de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no palco da convenção do PL que
formalizou o filho Zero Um como candidato à Presidência, deram ao Palácio do
Planalto e à diplomacia brasileira a certeza do alinhamento entre Javier Milei,
a ala ideológica do governo Trump — Rubio à frente — e o bolsonarismo.
Estaria em andamento a ação para submeter o Brasil, maior
economia da América do Sul, ao campo magnético do trumpismo. Até a reação do
governo paraguaio, também aliado dos Estados Unidos, à declaração inoportuna do
presidente brasileiro sobre a guerra entre os países no século XIX foi vista
como parte do empreendimento de perturbação política.
No período que antecedeu as eleições de 2022, Lula percorreu
o mundo democrático para arregimentar apoio ao processo eleitoral brasileiro.
Visitou Alemanha, França e Espanha. Nos
Estados Unidos, contou com o governo do democrata Joe Biden. A
possibilidade de interferência externa foi afastada; e os Poderes locais
garantiram a lisura do pleito e a posse do eleito. Bolsonaro, para não passar a
faixa presidencial, deixou o país no fim do período de transição, marcado por
aliados reivindicando intervenção militar em acampamentos no entorno de
quartéis.
O bolsonarismo conseguiu fraturar o arcabouço legal de
proteção à democracia por meio da Lei da Dosimetria, que atenua penas para
golpistas. É visível também a articulação para desqualificar, novamente, o
processo eleitoral. Flávio já se reuniu com diplomatas e lançou dúvidas sobre
as urnas eletrônicas. Citando a CIA, agência de inteligência dos Estados
Unidos, repetiu ao grupo informação, já desmentida pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE),
de que as urnas brasileiras têm a mesma origem de equipamentos relacionados a
um plano de fraude do governo venezuelano, em 2012.
Semana sim, semana também, há novo estresse com o STF,
relacionado à prisão de Bolsonaro pai, ou com o TSE, sobre o regramento das
eleições 2026. O risco é crescente. Um Brasil exausto de batalhar por um regime
democrático nunca implementado plenamente terá de arrumar forças para se
levantar, outra vez, contra o golpismo continuado.

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