sábado, 1 de agosto de 2026

BOLSONARISMO PÕE DISPUTA ELEITORAL SOB ESTRESSE DEMOCRÁTICO

Flávia Oliveira, O Globo

O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política

Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de ataques — que envolveu até operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar — deu na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.

O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022, antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

— Brasileiras e brasileiros, diálogo e negociação são normais nas relações diplomáticas, violência e arbítrio, não! Nossa soberania é inegociável. Quando a nação é atacada, devemos deixar nossas eventuais diferenças políticas para defender nosso maior patrimônio. Sujeitar-se a esta coação externa significaria abrir mão da nossa própria soberania, pressuposto do Estado Democrático de Direito, e renunciar ao nosso projeto de nação — dizia a carta tornada pública na ocasião.

O texto elaborado para aquele levante pode, sem ressalva, ser repetido agora, quando a democracia brasileira é, de novo, empurrada para o corner. Desta vez, o risco se apresenta numa aliança da extrema direita local com a internacional. Nos últimos meses, não apenas foi sepultada a relação cordial que Lula e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ensaiavam desde setembro de 2025. É evidente também o conjunto de iniciativas para estressar relações bilaterais com sanções econômicas e ofensas políticas; tensionar a convivência do bolsonarismo com o Judiciário; minar a legitimidade do pleito de outubro.

Em duas semanas, os Estados Unidos taxaram duas vezes o Brasil, em 25% e 12,5%, por motivação mais política que técnica. Postagem do próprio secretário de Estado, Marco Rubio, compartilhada pelo senador Flávio Bolsonaro, não deixou dúvida. No último sábado, os ataques do presidente argentino a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no palco da convenção do PL que formalizou o filho Zero Um como candidato à Presidência, deram ao Palácio do Planalto e à diplomacia brasileira a certeza do alinhamento entre Javier Milei, a ala ideológica do governo Trump — Rubio à frente — e o bolsonarismo.

Estaria em andamento a ação para submeter o Brasil, maior economia da América do Sul, ao campo magnético do trumpismo. Até a reação do governo paraguaio, também aliado dos Estados Unidos, à declaração inoportuna do presidente brasileiro sobre a guerra entre os países no século XIX foi vista como parte do empreendimento de perturbação política.

No período que antecedeu as eleições de 2022, Lula percorreu o mundo democrático para arregimentar apoio ao processo eleitoral brasileiro. Visitou AlemanhaFrança e Espanha. Nos Estados Unidos, contou com o governo do democrata Joe Biden. A possibilidade de interferência externa foi afastada; e os Poderes locais garantiram a lisura do pleito e a posse do eleito. Bolsonaro, para não passar a faixa presidencial, deixou o país no fim do período de transição, marcado por aliados reivindicando intervenção militar em acampamentos no entorno de quartéis.

O bolsonarismo conseguiu fraturar o arcabouço legal de proteção à democracia por meio da Lei da Dosimetria, que atenua penas para golpistas. É visível também a articulação para desqualificar, novamente, o processo eleitoral. Flávio já se reuniu com diplomatas e lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Citando a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, repetiu ao grupo informação, já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de que as urnas brasileiras têm a mesma origem de equipamentos relacionados a um plano de fraude do governo venezuelano, em 2012.

Semana sim, semana também, há novo estresse com o STF, relacionado à prisão de Bolsonaro pai, ou com o TSE, sobre o regramento das eleições 2026. O risco é crescente. Um Brasil exausto de batalhar por um regime democrático nunca implementado plenamente terá de arrumar forças para se levantar, outra vez, contra o golpismo continuado.

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