Suplente de senador é posição que passa quase totalmente
despercebida pelo eleitor
Isso dá margem a arranjos familiares ou para recompensar
doadores de campanha
Michelle
Bolsonaro designou o irmão para ocupar o posto de primeiro suplente na
chapa que ela encabeça para uma das vagas de senador pelo Distrito Federal. Bia
Kicis, que concorrerá à segunda vaga pelo mesmo PL da
ex-primeira-dama, pôs o filho. Helder Barbalho, que pretende tornar-se senador
pelo Pará, escolheu o pai, o eterno Jader Barbalho.
Arranjos familiares desse tipo são corriqueiros em
eleições para o Senado. Também é
comum ver financiadores de campanha galgados à posição de suplente. É um
investimento que pode "se pagar", quando se considera que, na atual
legislatura, 20 suplentes já chegaram a exercer, ainda que momentaneamente, o
mandato. O suplente substitui o titular em caso de morte, afastamento, renúncia
ou cassação.
O mecanismo tem sua lógica. Determinar
desde a origem quem são os "vices" dos senadores é uma forma de
economizar recursos. O mandato de oito anos é longo, então não são pequenas as
chances de substituição fazer-se necessária. O problema é que esse sistema
exige mais recursos atencionais do que o eleitor mediano é capaz de oferecer.
No Brasil, eleições para o Executivo e para o Legislativo
são casadas, e são as primeiras que mobilizam as atenções. Falamos muito da
disputa presidencial, um pouco dos pleitos para governador, e as legislativas,
que talvez sejam até mais importantes, ficam a reboque. Não é exagero afirmar
que o eleitor escolhe seu candidato a senador só quando sai de casa para votar.
Em 2018, Dilma
Rousseff liderava todas as pesquisas de intenção de voto para o Senado
por Minas, mas
ficou em quarto lugar.
Se nem nos senadores o eleitor presta muita atenção, o que
não dizer dos pobres deputados estaduais? Nesse contexto, os suplentes de
senador se tornam menos que curiosidades abstratas. Eles ficam tão
cognitivamente escondidos que concorrer como suplente é um bom jeito de
"fazer passar a boiada".
Não vou tão longe a ponto de defender o descasamento entre
eleições para o Executivo e para o Legislativo, mas poderíamos ao menos
extinguir os suplentes.

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