Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado
e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio
nacional está assentado em grandes assimetrias
“Um dia de cada vez”, máxima consagrada pelos Alcoólicos Anônimos, aplica-se
sob medida às campanhas dos dois candidatos que polarizam a eleição
presidencial: Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, e Flávio
Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sucessão de
fatos negativos produz oscilações nas pesquisas e obriga os marqueteiros das
duas campanhas a ter menos ansiedade com o futuro e mais atenção aos problemas
do presente, sobretudo àqueles aparentemente pequenos, mas capazes de assumir
grandes proporções.
Ao menos provisoriamente, a crise entre
Flávio e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, foi superada, com reflexos imediatos
nas pesquisas em favor do enteado. Agora, é Lula quem está na berlinda. Seu
filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e antigos auxiliares envolvidos em
investigações relacionadas à atuação de uma lobista fragilizam a agenda social
de Lula como defensor das camadas de menor renda.
Flávio, porém, também enfrenta vulnerabilidades próprias e
não pode imaginar que os desgastes do adversário sejam suficientes para lhe
garantir a vitória. As pesquisas nacionais mostram uma eleição muito apertada.
No levantamento Datafolha divulgado na semana passada, Lula aparece com 39% e
Flávio com 33% no primeiro turno. Numa simulação de segundo turno, o petista
vence por 47% a 43%, diferença situada no limite da margem de erro. A rejeição
dos dois é praticamente igual: 45% dizem que não votariam em Lula, e 46%, em
Flávio. O cenário confirma que a polarização está consolidada, mas não
significa que o resultado esteja definido.
A disputa presidencial, entretanto, não será decidida apenas
pelos números nacionais. É aí que o “Triângulo das Bermudas” formado por São
Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, por analogia, justifica o apelido. Na
navegação, é uma região famosa no Atlântico Norte associada a lendas de
desaparecimentos inexplicáveis de navios e aviões, compreendida entre a Flórida
(Estados Unidos), as Ilhas Bermudas e Porto Rico.
Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado brasileiro e podem
engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional
está assentado em duas grandes assimetrias regionais. Lula conserva ampla
vantagem no Nordeste, enquanto Flávio lidera no Sul. Segundo o Datafolha, numa
eventual disputa de segundo turno, o petista vence por 61% a 30% entre os
nordestinos, enquanto o candidato do PL supera Lula por 50% a 38% no Sul. No
Sudeste, há empate técnico. Isso significa que uma redução da vantagem de Lula
no Nordeste ou de Flávio no Sul pode alterar o resultado nacional.
São Paulo continua sendo o principal problema de Lula. A nova pesquisa Quaest
mostra empate entre Lula e Flávio, com 30% para cada um no primeiro turno, mas
o Datafolha aponta vantagem do candidato do PL por 47% a 42% numa simulação de
segundo turno. Uma derrota petista por cinco pontos no maior colégio eleitoral
do país seria administrável, desde que Lula mantenha larga superioridade no
Nordeste. Uma abertura maior, porém, poderia comprometer sua reeleição.
Palanques regionais
O palanque paulista favorece Flávio. O governador Tarcísio de Freitas lidera a
disputa pela reeleição com 40%, contra 27% de Fernando Haddad. No segundo
turno, Tarcísio venceria por 47% a 30%. A dúvida é se o governador vencer no
primeiro turno, o que fará no segundo. Em tese, oferece a Flávio uma estrutura
política robusta, apoio empresarial, capilaridade municipal e uma vitrine
administrativa. Haddad, o candidato de Lula, carrega rejeição elevada e ainda
precisa provar que pode reduzir a hegemonia da direita no interior paulista.
Minas Gerais apresenta desafio diferente. Lula e Flávio estão tecnicamente
empatados, com pequena vantagem numérica para o presidente. O estado tem uma
tradição de acompanhar o vencedor nacional e funciona como uma espécie de
síntese política e social do país. É grande demais para ser compensado por
outro colégio eleitoral e diversificado demais para ser conquistado
inteiramente.
O problema é que nenhum dos dois presidenciáveis dispõe, até agora, de um
palanque estadual confiável. Cleitinho Azevedo lidera a disputa pelo governo,
mas procura preservar um perfil independente e popular. Pode receber votos de
eleitores bolsonaristas sem sair do muro. Ao mesmo tempo, o campo governista
não conseguiu consolidar um nome capaz de unificar a base de Lula e polarizar a
eleição estadual. Essa indefinição transforma Minas no estado mais perigoso
para os dois lados. Em Minas, mais do que em São Paulo, a ausência de uma
engenharia política sólida pode custar a Presidência.
No Rio de Janeiro, ocorre uma aparente contradição. Flávio disputa em casa,
conta com a força histórica do bolsonarismo e aparece numericamente à frente de
Lula, embora em situação de empate técnico. Ao mesmo tempo, o favorito ao
governo é Eduardo Paes, aliado de Lula, que lidera com 37%, contra 14% de
Douglas Ruas, candidato do PL. Num eventual segundo turno, Paes venceria Ruas
por 50% a 20%.
Paes oferece a Lula um palanque forte, mas ambíguo. Precisa do apoio
presidencial e das forças de centro-esquerda, porém evita colar no petismo para
não perder eleitores conservadores. Flávio enfrenta o problema inverso: é forte
na eleição presidencial, mas seu candidato ao governo ainda não acompanha esse
desempenho. O “Triângulo das Bermudas” pode neutralizar a vantagem nordestina
do presidente ou conter o avanço oposicionista no Sul.

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