O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma
operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a
precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público.
A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG
Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que
uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de
agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no
primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate
técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de
erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada
pelo instituto e no que provocou tal inflexão.
O que se viu na semana que antecedeu a
pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande
imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público.
Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa
análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o
que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar
um lado e blindar o outro.
A construção da narrativa
As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e
telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André
Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar
Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por
si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou
uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a
priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como
“tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor
a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.
O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho
de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta
trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador
— desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua
relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação
premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A
blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm
consequências.
O silêncio como discurso
A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um
acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como
manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um
duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o
governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja
confrontado com as contradições de seu candidato.
Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra
que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior
escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da
grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu
patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.
O papel da imprensa no jogo eleitoral
É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às
redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes
primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os
disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define
os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado
inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.
A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo
didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação
de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro,
que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado.
Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao
presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.
O que os números escondem
A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026,
traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por
exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas
16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a
desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles
são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais
que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.
A decisão longe das urnas
A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas
redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o
processo que o produziu.
A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi
um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A
investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado,
enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias,
relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel
Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.
A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio,
exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do
país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não
escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um
viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa,
que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.

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