Investigações sobre filho do presidente, mesmo que
avancem, não devem mudar muito panorama das pesquisas eleitorais
Revelação de conexão entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro não
fez candidatura murchar, como deveria ocorrer em mundo racional
As investigações da
PF contra Lulinha estão
avançando. O Lulão deve se preocupar com isso? Um pouco. Seria obviamente
preferível iniciar o período oficial de campanha sem carregar um filho contra o
qual pesam suspeitas, mas é improvável que o cerco policial, mesmo que revele
coisas mais concretas do que o que apareceu até aqui, mude muito o panorama
eleitoral.
A melhor prova disso é Flávio
Bolsonaro. O bolsonarismo saltou da insignificância para o Palácio do
Planalto em 2018 como um movimento de reação à corrupção envolvendo o PT e outros
partidos. Num mundo minimamente racional, a revelação de que o sucessor do
capitão reformado e postulante à Presidência pediu e recebeu dezenas de milhões
de reais de Daniel
Vorcaro, a figura que hoje representa a quintessência da corrupção, faria
sua candidatura murchar como um suflê fracassado. O que vimos, porém, é que o
escândalo Dark
Horse lhe custou num primeiro momento só quatro pontos percentuais no
Datafolha.
E isso nos leva à polarização afetiva. Um dos vieses
cognitivos responsáveis por esse fenômeno é a aversão a perdas. O eleitor tem
tamanho pavor de ver o candidato que mais rejeita triunfar que aceita qualquer
coisa daquele que identifica como alternativa com maior chance de derrotar o
desafeto. Acaba funcionando como um amplo habeas corpus preventivo, que opera
no sentido inverso ao da responsabilização política, um elemento valioso para a
democracia.
E a responsabilização política não é a única vítima. Outro
efeito daninho a que estamos assistindo é que os postulantes principais,
acomodando-se ao papel de "eu sou aquele que vai evitar o mal maior",
se sentem desobrigados de apresentar planos de governo. Nem Lula nem
Flávio dirão claramente como pretendem enfrentar a encrenca fiscal em que o
país se enredou.
O próprio sistema eleitoral sai chamuscado. Adotamos os dois
turnos justamente para dar ao eleitor a oportunidade de votar "a
favor" de alguém no primeiro escrutínio e guardar a rejeição para o
segundo.

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