No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das
pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras
Foram dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós
brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão
O deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony
Fauci provam que Jair
Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao
isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como
todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo",
esse também termina com "era tudo mentira".
Nada disso está nos diários de Fauci. Se
você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.
Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de
volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que
Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.
Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes
totais, sendo
um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por
falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio
governo Bolsonaro.
O "mínimo de 100 mil mortos" é baseado na estimativa
do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas
bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre
janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.
Na verdade, o
número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de
"mortes em excesso" ("excess deaths") ocorridas no Brasil
durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal,
dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras
doenças (que permaneceu igual).
A estimativa do número de mortos por falta de vacina no
primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou.
Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada
pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido
evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas
as ofertas de vacina que Jair recusou.
No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas
que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos
são brasileiros.
O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro
são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram
na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães,
pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado
um botão. Jair não apertou.
Fica pior.
Quando Jair começou a implementar sua política de
"imunidade de rebanho" —deixar a população adquirir imunidade
pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido
descoberta. Se João Doria não
tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil
seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido
pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?
Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe
de 2022 quando Mauro Cid foi
preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.
Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a
próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a
justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.

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