Pelo receituário do presidente dos EUA, saúde pública é
commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário
Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já
borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:
— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o
mundo.
Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o
campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O
feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força
cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao
islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.
O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de
Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed
El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome
do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo,
foram inspiradas em Ali:
— Nós sacudimos o mundo.
O mundo, ele e seus eleitores não
sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano,
certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada
montado num programa arriscado, por progressista e populista:
1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e
Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de
imigrantes sem documentação regularizada);
2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e
médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com
mais de 65 anos e portadores de deficiências;
3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos
ao governo de Israel;
4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o
predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.
El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente
congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio
ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há
anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o
incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande
ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não
tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.
Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a
sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel
de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30
milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de
frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado
democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a
desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia
não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a
candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada,
a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda
eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United
Democracy Project.
Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a
eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o
primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o
estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis
e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu
em 2024, sempre com margens apertadíssimas).
Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista
que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O
epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas
postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que,
exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se:
quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para
milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm
poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada
por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer
elogio.
Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity,
educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do
indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de
liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais
medo.

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