Em pouco mais de 70 anos, a Coreia do Sul passou de país
devastado pela guerra a integrante do grupo das economias mais desenvolvidas do
mundo. É uma trajetória que pode inspirar lideranças no Brasil e na América
Latina
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, visitou o
Brasil semana passada. Foi recebido pelo presidente Lula, no Palácio da
Alvorada, de maneira formal e recepcionado no Itamaraty com banquete de muitos
talheres. Todo o evento foi cercado de mesuras e louvações ao ilustre
convidado. No entanto, pouca gente percebeu a visita do asiático. Em Brasília
as pessoas entenderam que alguém importante estava na cidade, porque as ruas
centrais da capital foram fechadas e o trânsito ficou difícil. E um avião imenso
ficou estacionado no aeroporto.
A visita do presidente da Coreia do Sul concentra diversos
significados neste dramático momento da história nacional. Pressionados pelo
governo dos Estados Unidos, os brasileiros buscam alternativas para manter sua
economia funcionando. A solução é diversificar mercados. E a Coreia do Sul, um
dos chamados tigres asiáticos, tem apetite e dinheiro suficientes para
compensar em boa parte as perdas nacionais no mercado norte-americano.
O presidente coreano deixou Brasília e
seguiu para São Paulo onde, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin,
participou de reunião com empresários dos dois países com objetivo de discutir
a diversificação de mercados para exportações brasileiras e cooperação nas
áreas de tecnologia, energia e agronegócio. Esse encontro deu sequência ao
anterior, realizado em Seul, em fevereiro de 2026, com a presença de 450
empresários brasileiros e coreanos. O Brasil tem corrente de comércio com
aquele país em torno de US$ 11 bilhões. Participa com 1% da importação de bens
da Coreia. Os empresários estão convencidos de que poderão fazer esses números
crescerem bastante.
A história da Coreia do Sul é recente como Estado
independente, mas remonta há mais de 2 mil anos. A Península Coreana foi
ocupada por diversos reinos antigos. Em 1392, foi fundada a dinastia Joseon,
que governou por mais de cinco séculos. Durante esse período, consolidaram-se a
administração do Estado, a influência do confucionismo e, em 1443, foi criado o
alfabeto coreano pelo rei Sejong. Em 1910, o Japão anexou a Coreia, que
permaneceu sob ocupação estrangeira durante 35 anos. Os coreanos sofreram, naquele
período, forte repressão política e exploração econômica.
No fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão foi
derrotado e perdeu a colônia. A península foi dividida, ao longo do paralelo
38. Ocupação soviética ao norte, e ao sul, norte-americana. Em 1948, surgiram
dois Estados: Coreia do Sul (República da Coreia), capital Seul; e Coreia do
Norte (República Popular Democrática da Coreia), capital Pyongyang. Em junho de
1950, a Coreia do Norte invadiu a do Sul na tentativa de unificar a península
pela força. O conflito terminou em 1953 com armistício. Tecnicamente, as duas
Coreias continuam em estado de guerra.
No final do conflito, a Coreia do Sul era um dos países mais
pobres do mundo. A partir dos anos sessenta, século passado, sob o governo de
Park Chung-hee, começou o processo acelerado de industrialização baseado no
investimento em educação, planejamento estatal, incentivo às exportações e
apoio a grandes conglomerados industriais. Durante parte desse período, a
Coreia do Sul foi governada por regimes autoritários. Na década de oitenta,
grandes manifestações populares levaram à redemocratização. Em 1987, foi
estabelecido o sistema democrático atual, com eleições diretas para presidente.
A Coreia do Sul é, hoje, uma das maiores economias da Ásia.
É líder em semicondutores, eletrônicos, construção naval e baterias, referência
em educação, inovação, pesquisa e potência cultural, graças ao fenômeno K-pop.
Em pouco mais de 70 anos, o país passou de devastado pela guerra a integrante
do grupo das economias mais desenvolvidas do mundo. É uma trajetória que pode
inspirar lideranças no Brasil e na América Latina. O país não ficou imobilizado
para chorar as mágoas. O governo decidiu que o mais importante era seu povo,
numa região que não oferece recursos minerais nem vantagens comparativas.
Investiu em educação e multiplicou por 20 a renda per capita em 70 anos.
O Brasil vive os pródromos da eleição presidencial, mas
nenhum candidato até agora teve a preocupação de anunciar programa de governo
ou de metas. O exemplo da Coreia é escandalosamente luminoso para os
brasileiros. Capaz de atingir até os olhos menos sensíveis dos populistas com
reduzida criatividade e golpistas que se julgam espertos. É uma possibilidade
viva e alcançável. Depende menos de discursos recheados por promessas vazias e
mais de planejamento, organização e trabalho. Só.

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