Não há registro de crises monetárias e financeiras
provocadas pelo endividamento “excessivo” dos governos em moeda nacional
Em entrevista ao Estadão, o simpático economista José
Roberto Mendonça de Barros abordou o tema do ajuste fiscal. Respeitosamente,
devo assinalar as dúvidas que me assaltam quando o debate entre economistas da
corrente conservadora repete o mantra do risco fiscal. Se me permitem, caros
leitores de nossa CartaCapital, vou enfiar a colher da “heterodoxia”
keynesiana na sopa das concepções que circulam nos arraiais da “macroeconomia
do equilíbrio”.
Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a
uma trajetória “insustentável” da dívida pública. Insustentável, porque essa
vileza vai, no futuro, mortificar os mais jovens e os que ainda não vieram à
luz, com um calote devastador na riqueza financeira que circula pelos balanços
de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do dinheirão e do
dinheirinho. Não são poucos os que antecipam um calote na dívida do Estado.
Esse calote seria devastador para a riqueza financeira privada, aquela que
frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do
dinheirão e do dinheirinho.
Na visão monetarista-conservadora,
admite-se que não existem fatores de perturbação monetária oriundos das
avaliações privadas. Implicitamente, supõe que as decisões dos centros privados
são sempre orientadas pela racionalidade dos agentes que habitam o mundo dos
negócios e das finanças. Essas decisões gerariam resultados que corresponderiam
ao que foi antecipado, vale dizer, as expectativas seriam sempre cumpridas e
não haveria incerteza. Desta forma, qualquer desequilíbrio monetário decorreria
do descumprimento, por parte do Estado, das regras de gestão.
Os estudos de Thomas Piketty sobre o papel da dívida pública
na composição da riqueza privada nos primórdios do capitalismo mostram a
importância do ativo-passivo emitido pelos governos na transição dos
patrimônios imobilizados na terra para a riqueza móvel e líquida. O sistema
monetário-financeiro de nossos tempos foi construído sob a direção do Banco da
Inglaterra. O banco administrou, com a dívida pública, as trepidações e
expropriações abrigadas no ouropel da finança.
Parênteses: ouropel é uma lâmina fina de latão que imita o
ouro, além de representar um falso brilho, uma aparência enganosa de luxo ou um
estilo vazio que esconde a falta de ideias.
O economista Pierre Dockés ensina: entre o fim do século
XVII e o início do século XVIII, a Grã-Bretanha forjou os meios que lhe
permitiram endividar-se massivamente, depois, no século XIX, viveu e prosperou
com essa enorme dívida, reduzindo impostos antes de reduzi-la lentamente. O
primeiro período, de 1688 a 1815, longe de ser uma corrida precipitada ao
endividamento, foi a construção de uma capacidade moderna de contrair dívidas,
complementada por uma capacidade moderna de cobrar impostos, uma arma decisiva
do poder econômico e político britânico.
No capitalismo financeiro do século XXI, a apropriação de
renda “rentista” está intimamente associada ao inchaço das dívidas públicas
nacionais. Para compreender a “dinâmica” do enriquecimento e da desigualdade, é
necessário avaliar o papel do endividamento público na valorização do capital
financeiro e na transmissão da riqueza entre as gerações. No afã de se
apropriar da riqueza, as criaturas do mercado buscam, ao mesmo tempo, apostar
nos ganhos futuros e garantir o valor de sua riqueza com ativos seguros,
garantidos pelo Estado. Nesse espaço de decisões aparentemente contraditórias,
os títulos públicos atuam como garantias diante da incerteza do futuro.
Os estudos sobre as relações entre o crescimento da dívida
privada e da dívida pública ao longo dos ciclos de expansão-contração das
economias capitalistas mostram, de forma cabal, que, nas expansões, predomina o
crescimento do endividamento privado e, nas contrações, eleva-se o
endividamento público. Quando as desconfianças dos mercados se acentuam, a
tigrada corre para os títulos públicos, considerados ativos seguros de última
instância.
As crises financeiras dos países ditos emergentes estão
invariavelmente associadas à tomada de empréstimos em moeda estrangeira. Essa
foi a causa da crise fiscal e monetária dos emergentes nos anos 80 do século
passado, entre os quais o Brasil. A crise da dívida externa, deflagrada no
início dos anos 80, produziu efeitos devastadores sobre as finanças públicas e
erodiu a soberania monetária dos países atingidos ao suscitar uma fuga
sistemática das moedas nacionais.
Em minhas peregrinações pelos labirintos da história do
capitalismo, não encontrei sequer um fio de memória que denunciasse uma crise
monetária-financeira provocada pelo endividamento “excessivo” dos governos em
moeda nacional.
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05
de agosto de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário