Não tenho dúvidas, o melhor ambiente para a condução dos
destinos do mundo é a democracia. Mas ela, humana, carrega as contradições que
são próprias de nossa natureza: virtudes e pecados, sentimentos generosos e
perversos. Talvez, seja a política a atividade que melhor encarna a
complexidade e os mistérios da existência humana. Há um lado nobre convivendo
com traços abjetos. Solidariedade ao lado de ambições desmedidas. Fome de
liberdade e justiça disputando espaço com a corrupção. Vontade de melhorar a
vida de todos, lado a lado, ao egoísmo, ao patrimonialismo e à manipulação.
Quando aos 16 anos, em 1976, em plena
ditadura, iniciei minha militância social e política, tudo era sonho. Não havia
liberdade. As desigualdades eram alarmantes. A vontade de participar na vida
pública surgia a partir de uma utopia, uma visão de mundo, um projeto de
sociedade. A política só fazia sentido se abrisse porta para a mudança. Havia
teoria, coração, projeto, sonho, esperança.
Minha geração estudantil conquistou todos os seus objetivos
políticos: anistia ampla, constituinte livre e soberana, eleições diretas para
presidente. Acabamos com a hiperinflação e o estrangulamento externo,
construímos o SUS, universalizamos o ensino básico, consolidamos a democracia,
tão testada. Mas, 41 anos depois da redemocratização, o Brasil continua um copo
meio cheio, meio vazio. Fracassamos no combate à corrupção, na qualidade da
educação, no saneamento, na moradia. Entregamos parcela do nosso território
para o crime organizado. O Brasil continua absurdamente desigual e não saltou –
como era nossa ideia – do time de países emergentes para padrões de nação
desenvolvida. Não superamos a armadilha da renda média. O crescimento da
economia, das últimas décadas, parece uma montanha russa. Picos exuberantes,
recessões alarmantes.
A política mudou. Quando me elegi vereador, aos 22 anos,
tudo era sonho e poesia. Minha campanha não tinha dinheiro, era estudante, só
ideias e vontade de lutar. Fui depois deputado estadual e federal, secretário
de planejamento e de saúde, ministro em exercício de dois ministérios. Tudo só
fazia sentido em nome do projeto original. Em 2019, fui convocado a reassumir
meu mandato federal. Não quis. Não era mais meu mundo, polarização nas
redes, radicalismo ao invés do diálogo, estrutura e dinheiro ao invés de
utopias, demagogia e populismo no lugar de formulação e discussão sérias e
profundas. Confesso, foi expressão de meu pessimismo, que conservo até hoje.
Vinte dias atrás, marquei um almoço com um grande amigo em
Brasília. Não acreditei. Do alto de seus 82 nos e a partir de uma trajetória
marcante e reconhecida, o Cristovam me falou que era candidato a deputado
federal. Seus olhos brilhavam de esperança. Sonhando com a radicalização da
democracia e uma educação universalizada de qualidade, a partir de um sistema
nacional de educação. Minha primeira reação: você é louco, o ambiente é hostil
para pessoas como nós. E ele, ex-reitor da UNB, ex-governador e ex-senador,
ex-ministro da Educação, que tanto fez, só me falava dos sonhos futuros. Aí vi
que ali, em um octogenário, estava encarnado aquele menino de 16 anos em Juiz
de Fora.
O que Cristovam Buarque estava me dizendo essencialmente é
que os sonhos não envelhecem – Ave, Márcio Borges! – e que a esperança ainda
está no ar.

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