domingo, 30 de agosto de 2026

UM ACORDO ARRISCADO NA VENEZUELA

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias para empresas dos EUA

Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos de petróleo para companhias americanas no país latino-americano

Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória, jurídica e financeira.

A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.

O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.

Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.

A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.

LEGITIMIDADE. Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.

A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.

O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.

Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.

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