Erro, momento falso na construção da verdade, é questão
lógica; mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico
Fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da
esfera individual ao Estado
Na última conversa com Trump, Lula retificou
mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as
mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho
escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news,
portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória
viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque,
pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.
Políticos mentem individualmente, como
recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de
confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção
("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como
"uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva:
"Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto
mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".
Erro, momento falso na construção da verdade, é questão
lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida
(em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um
paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir
como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar,
portanto, um grau real de violência na quebra moral da responsabilidade que se
deva ter para com o outro.
Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando
passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus
aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de
falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão
do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do
sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas
agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados
(não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.
Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer
pretexto. Afundar lanchas no Caribe, sem comprovação de narcotráfico
nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto
criminoso", extensiva a imigrantes. Senão, extorquir petróleo a preço
de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres
americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das
vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova
forma de colonização administrativa.
Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a
desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o
fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de
mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo
cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.
Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es
mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É
que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste
hipótese de vida pública.
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