Não haverá crescimento mais veloz enquanto os setores
público e privado mantiverem uma aplicação miseravelmente baixa em
infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas
Comer, morar, acompanhar o mundo pela TV e assistir a
novelas – tudo isso ficou mais barato em agosto, quando o custo de vida recuou
0,32%, puxado pelas despesas com alimentação (0,34%), habitação (-1,87%) e
eletricidade (-7,63%). Milhões de famílias endividadas e pressionadas pelos
juros pouco devem ter percebido essas melhoras, mas suas finanças – pelo menos
objetivamente – ganharam alguma estabilidade. É difícil apostar se essa
condição persistirá até dezembro ou, num quadro muito mais otimista, se ainda
se manterá no início do novo mandato presidencial, em 2027.
A inflação acumulada no ano, até agosto,
bateu em 3,11%. Em 12 meses, os preços ao consumidor aumentaram 4,22%, pouco
menos do que no período até julho (4,44%), e as últimas projeções de mercado
indicaram 5% até dezembro. Esse número é bem superior ao teto da meta, 4,5%, e
muito distante do centro, ainda fixado em 3%.
As notícias do campo indicam uma boa produção de alimentos,
componentes fundamentais do custo de vida. Mas a inflação depende também da
gastança federal, sem perspectiva de grande contenção, e das condições
internacionais, ainda muito sujeitas aos delírios imperiais do presidente
Donald Trump e, como sempre, às ambições das maiores potências da Europa e da
Ásia.
As encrencas no Oriente Médio têm elevado o preço do
petróleo, beneficiando a Petrobras, mas, ao mesmo tempo, dificultando a
política anti-inflacionária no Brasil. O governo tem procurado conter o
encarecimento dos combustíveis e lubrificantes, mas esse tipo de intervenção
impõe custos indesejáveis ao poder federal.
Pressões desse tipo, surgidas de fatores fora do controle
brasileiro, são motivos adicionais para uma gestão mais prudente das contas
públicas. Nem todo governante petista é gastador, mas o presidente Lula parece
nunca haver abandonado, para valer, a velha identificação entre governar e
gastar. Não se governa, é claro, sem realizar despesas, mas esse reconhecimento
de nenhum modo envolve a defesa da gastança como algo indispensável.
Se nada for feito, em Brasília, para disciplinar os gastos
federais, a insegurança fiscal seguirá dificultando o equilíbrio das contas
públicas e uma redução mais firme dos juros pelo Banco Central (BC). Juros
elevados continuarão atrapalhando os negócios, emperrando o crescimento
econômico e freando a criação de empregos produtivos e mais seguros.
Sem finanças públicas mais controladas e juros mais
toleráveis, o investimento permanecerá travado e o País continuará no atoleiro,
sem perspectiva de modernização e expansão do potencial produtivo.
Não haverá crescimento econômico mais veloz – vale a pena
repetir essa obviedade – enquanto os setores público e privado mantiverem,
conjuntamente, uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas,
equipamentos e instalações produtivas. É urgente retomar com firmeza, para em
seguida ultrapassar, o velho nível de investimento correspondente a 18% do
Produto Interno Bruto (PIB). O investimento em educação e pesquisa vem
melhorando, mas tem de avançar muito mais para o Brasil deixar de ser uma economia
emergente sem perspectiva de maior avanço.
A maldição do emperramento econômico é lembrada semanalmente
no boletim Focus, em que a mediana das projeções de crescimento permanece na
vizinhança de 1,90% para este ano, em torno de 1,50% para 2027 e pouco acima
disso para os anos seguintes.
Esses números são conhecidos tanto no governo quanto no
setor privado, mas a persistência desse quadro parece pouco alarmante para as
autoridades. No setor empresarial, surge de vez em quando algum sinal de
preocupação com o baixo nível geral de investimento, mas sem manifestações
importantes sobre o assunto.
Enquanto isso, o governo insiste em gastar, simplesmente,
como se isso bastasse para promover a necessária expansão do PIB. Não basta, no
entanto. Para se alcançar esse resultado, é preciso gastar bem, poupando e
aplicando recursos em meios produtivos selecionados segundo sadios critérios
empresariais e governamentais. Esses critérios são seguidos em outros países,
desenvolvidos e em desenvolvimento, com resultados visíveis para quem acompanhe
com alguma atenção a economia internacional.
Na cúpula do poder, em Brasília, esse acompanhamento parece
envolver pouco mais que o interesse em questões geopolíticas e diplomáticas,
mas no sentido mais abstrato. Se o interesse das autoridades fosse um pouco
mais prático e mais prosaico, alguém poderia notar, por exemplo, a diferença
entre o dinamismo de outros membros do Brics e o do Brasil.
Inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e
África do Sul, esse grupo expandiu-se rapidamente e passou a incluir países
muito diferentes, mas quase todos com uma característica evidente – um
dinamismo econômico maior que o do Brasil. Se as autoridades de Brasília dessem
maior atenção às diferenças de desempenho econômico e às suas explicações
técnicas, talvez as projeções do PIB no boletim Focus, hoje tão modestas,
ficassem um pouco mais animadoras.

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