O Supremo é um arquipélago, cada ministro é uma ilha
fortificada, com artilharia e munição pesadas. Fachin não tem autoridade
hierárquica sobre os ministros no exercício da jurisdição
Em Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha lançada em 1967, a fictícia
República de Eldorado mergulha numa crise política que dissolve as fronteiras
entre democracia, populismo, autoritarismo e ambição pessoal. O poeta e
jornalista Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho, procura interferir nos
destinos do país, mas oscila entre dois projetos de poder: o conservador
Porfírio Diaz, vivido por Paulo Autran, e o líder populista Felipe Vieira,
representado por José Lewgoy. Paulo rompe com Diaz e se aproxima de Vieira, na
esperança de construir uma alternativa democrática.
Aos poucos, porém, percebe que os dois campos se alimentam das mesmas práticas:
a manipulação das massas, os acordos de cúpula, a retórica vazia e a
transformação da política num grande espetáculo. Dividido entre o idealismo e o
desencanto, acaba tragado pelo sistema que pretendia modificar. Ao lado de
Jardel Filho, Paulo Autran e José Lewgoy, participam do filme Glauce Rocha, no
papel de Sara; Danuza Leão, como Sílvia; Paulo Gracindo, como Júlio Fuentes;
além de Hugo Carvana, Francisco Milani, Jofre Soares e Flávio Migliaccio. A
música é de Sérgio Ricardo; a fotografia, de Luiz Carlos Barreto; e a montagem,
de Eduardo Escorel.
Marco do Cinema Novo, Terra em Transe
transformou o impasse brasileiro posterior ao golpe de 1964 numa alegoria sobre
as estruturas de poder da América Latina. Com sua narrativa convulsiva, seus
discursos teatrais e sua montagem fragmentada, Glauber não pretendia reproduzir
os acontecimentos de forma documental. Procurava revelar o delírio de uma
sociedade cujas instituições continuavam formalmente de pé, mas já não
conseguiam ordenar os conflitos políticos. O filme disputou a Palma de Ouro no
Festival de Cannes, onde recebeu os prêmios da crítica internacional e de Luis
Buñuel.
Seis décadas depois, a alegoria glauberiana de Eldorado
aparece na crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Corte vive um momento
no qual polêmicas decisões individuais, disputas de competência e suspeitas
recíprocas ameaçam produzir um Estado de transe institucional. O caso do Banco
Master ultrapassou os limites de uma investigação financeira. As recentes
decisões de Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino colocam em xeque
a autoridade do STF, alcançam a Procuradoria-Geral da República e envolvem a
cúpula da Polícia Federal. Quando um ministro desautoriza o outro, processos
diferentes se cruzam e instituições encarregadas de investigar passam a
integrar a própria controvérsia, o problema torna-se uma crise de Estado.
Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da
Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição,
Leandro Almada. Dino decidiu reintegrá-los. Moraes, por sua vez, encaminhou à
Presidência do Supremo documentos da PF para sustentar um pedido de
investigação sobre a atuação de Mendonça. A disputa virou um labirinto
jurídico, formado por mensagens apreendidas, relatórios policiais e vazamentos
seletivos. Estão perdidos todos os envolvidos, inclusive o procurador-geral da
República, Paulo Gonet. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda não encontrou
o fio de Ariadne para sair dele. Quem é o Minotauro nessa história? Moraes ou
Mendonça?
E quem paga a conta?
Fachin resolveu assumir a condução institucional do conflito. Suspendeu as
decisões de Mendonça e Dino sobre a direção da PF, manteve Andrei no cargo,
retirou de Moraes o controle do pedido de investigação relacionado à
controvérsia e estabeleceu que novas medidas contra integrantes da Corte
dependerão de sua autorização. Também decidiu levar o conjunto das questões ao
Plenário.
O presidente do STF tenta interromper o transe e devolver à
instituição a unidade de comando, colegialidade e previsibilidade. Não lhe cabe
proteger ministros nem antecipar julgamentos. Sua responsabilidade é garantir o
devido processo legal, preservar a competência do Plenário e impedir que o
Supremo se transforme simultaneamente em investigador, parte interessada e juiz
de seus próprios conflitos. Parece fácil, mas não é, porque a Corte está muito
dividida e a disputa entre seus integrantes virou uma briga de rua, ou seja,
não tem regra.
O Supremo é um arquipélago, cada ministro é uma ilha fortificada, com
artilharia e munição pesadas. Fachin não tem autoridade hierárquica sobre os
ministros no exercício da jurisdição, mas responde pela preservação
institucional da Corte. Diante de decisões contraditórias, cabe-lhe organizar
os processos, definir os caminhos regimentais e convocar o colegiado. Quando o
Plenário se reúne, porém, a autoridade não pertence aos gabinetes isolados nem
à capacidade de cada ministro de impor sua interpretação por meio de uma
liminar. A maioria dos ministros decide pelo voto.
É aí que mora o perigo. Um armistício entre os integrantes da Corte não é
suficiente. A saída depende da apuração transparente dos fatos, da preservação
das provas, da definição das competências e da submissão de todos às mesmas
regras. Qualquer solução destinada somente a salvar as aparências ampliará a
desconfiança da sociedade e projetará a crise sobre as eleições. Não à toa, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a quebra integral do sigilo do
caso Master, “doa a quem doer”. Foi arrastado para a crise pelas conexões e
pelos vazamentos que alcançam personagens ligados ao governo.
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