Volto hoje a usar como referência, nesta coluna, agora com
mais ênfase, avaliações recentes do quadro das eleições presidenciais, feitas
pelo cientista político Antônio Lavareda. O resumo de entrevista sua aos
jornalistas Matheus Leitão, Rafael Campos e Maria Carolina Brito foi publicado
na coluna do primeiro no site Metrópoles, na quarta-feira, 23.09. Lavareda
avaliou, nessa entrevista, que se a eleição fosse hoje Flávio Bolsonaro seria
favorito. E usou, por outro lado, a imagem da "eternidade" para se
referir ao tempo hábil que ainda resta à campanha de Lula para alterar a
situação que lhe seria adversa.
A imagem da eternidade foi metáfora um
tanto vaga, talvez por cuidado profissional de quem tem a justa reputação de
ser dos mais sólidos e experientes realizadores e analistas de pesquisas
eleitorais do país. Um profissional desse ramo não deve abrir espaço, numa
entrevista jornalística, para ser interpretado, pelo grande público, como
conselheiro de uma das campanhas. Mas dias antes - como comentei semana passada
- ele fora muito mais específico numa discussão virtual de que participou com o
movimento Derrubando Muros. Em vez de uma metáfora, emitiu um conceito que, a
meu ver, seria, caso considerado, muito útil à campanha de Lula para aproveitar
de modo politicamente positivo essa lacuna de tempo restante: o conceito de
mudança, que Lavareda entende como o sentimento predominante no eleitorado,
cuja consideração é condição para um candidato ter chance de vitória.
Mudança na pauta e no tom da campanha para veicular uma
noção de mudança política. Novo conceito na comunicação que, por sua vez,
requer, para ser veraz e ter credibilidade, uma nova estratégia política,
admitindo que mudanças importantes, não apenas táticas, são necessárias na
atitude do incumbente.
Lavareda não está descobrindo a pólvora. Nem o diagnóstico
do humor do eleitorado é novo nem são novas as críticas à atitude de Lula. Nada
disso pode ser novidade principalmente para quem está discutindo a campanha com
o candidato. É o que o noticiário sobre bastidores da política já registra, a
ponto de se cogitar uma divisão na campanha. A boa notícia é que não há
ignorância ou desaviso, nem falta reflexão. A má notícia é que, apesar disso,
predomina a inércia e a busca de uma “bala de prata”.
Penso ser um equívoco deixar passar batido o toque de
Lavareda - que não foi conselho profissional a vigário, mas reflexão
responsável de um intelectual público, que ele também é - e suas implicações na
comunicação e na política, Na data da discussão com Lavareda, acima referida
(18.09), a bola já estava há algum tempo com o incumbente. Faltavam dezessete
dias até o início da campanha do segundo turno, momento em que é razoável
esperar que haja uma virada de chave. Já se passaram oito dias, restam nove e
não há sinal de preparação dessa virada, mesmo que fora dos holofotes
principais da campanha. É invisível até aqui um movimento que desafie a inércia
da polarização com viés moral, do personalismo narcisista e da falta de aceno
ao futuro. Deixo claro que uso aqui a palavra futuro no estrito sentido de
compromissos de conduta do próximo governo. Sentido imediato e modesto, como
pede o contexto.
Ao contrário do que aqui se postula como "razão
razoável", ambas as campanhas seguem, como bem assinalou a colunista de
política Vera Magalhães, em seu artigo "Debate pode tirar eleição do
escuro" (O Globo, 25.09.26), opacas em suas retrancas, a de Bolsonaro no
modo ideia fixa e a de Lula no modo aleatório. Há, de fato, grande chance de,
quando a luz se acender, no dia do debate da Globo, o país ver dois gladiadores
ensanguentados numa cena de luta livre. Especialistas em comunicação política
podem opinar (e não tenho como negar suas razões), que a essa altura é
necessário um derradeiro esforço de reiteração desse varejo rude e agressivo
para Lula conseguir manter sua margem exígua de vantagem numérica no primeiro
turno e, com isso, evitar desabamento precoce do ânimo moral da sua tropa. Esse
efeito negativo é cogitado por Lavareda na hipótese de Lula ser ultrapassado
ainda no primeiro turno.
Com ou sem ultrapassagem, se um novo script de campanha (de
moderação e cuidado com potenciais aliados, revisão de condutas do Lula 3 e
compromissos concretos de partilha de poder num Lula 4) não for adotado para o
segundo turno e não puder ser ao menos esboçado já no debate da próxima
quinta-feira (mesmo que ao lado dos impropérios de varejo), o desabamento do
moral da tropa poderá ser só questão de tempo. E aí as três semanas do segundo
turno parecerão mesmo uma eternidade, no sentido de serem penosas, ainda que
entremeadas por imagens espetaculares de engajamento e animação.
Tem sido difícil preservar a vida ativa da razão razoável na
hora em que a definição se aproxima. Mesmo as emoções mais ilhadas e
intimidadas tendem a ser fustigadas para se fazerem presentes ao juízo final.
Por encanto, o ceticismo que predomina há meses poderá ser invisibilizado e
banido como argumento, por força de cenas controladas pelas campanhas oficiais
e pela obstinação de militâncias. Impossível descartar chances de sucesso na
mobilização de certos segmentos sociais e até mesmo que essas cenas venham, de
algum modo, a influir no resultado eleitoral. Ou não. Certo é que a palavra
tomara será uma das mais acionadas do dicionário dos atores políticos e dos
eleitores engajados durante esses dias.
Interessante (não por ser espantoso, ou misterioso, mas
pedagógico sobre nosso "normal") acompanhar a dança de dois tipos de
narrativa que tendem a ficar mais presentes nas duas campanhas, até ou além da
conclusão do processo. A partir de ambas as campanhas prosperam tanto
narrativas focadas em engajamento otimista de vontades e voltado à conquista da
vitória eleitoral, quanto narrativas-vacina, que antecipam discursos
explicativos de uma eventual derrota, para minimizá-la ou, até mesmo, não a
reconhecer.
O senso comum percebe intuitivamente e a inteligência
artificial cataloga facilmente os dois tipos de narrativa. Basta consultar, um
ou outra. Por isso não me ocuparei do trabalho supérfluo de
"revelá-las". O que tem sentido numa coluna sobre política é
alertar, a quem quer preservar suas próprias razões como razões razoáveis, para
a presença de traços de várias narrativas desses dois tipos em palavras e obras
(não tenho o dom de ler "pensamentos") dos atores concretos
envolvidos no espetáculo em exibição. Quem quiser procurar não terá dificuldade
de achar. Diante da revelação do desde sempre percebido, a pessoa de boa-fé não
precisa ter que escolher entre ficar chocada, decepcionada, ou magoada e, daí,
revoltada, apática ou indiferente. Todas essas são reações emocionais próprias
de nossa humanidade desejante. Mas votar, sim, é um ato de vontade, logo
racional, seja qual for o seu gatilho emocional. Um ato de escolha para o
cidadão ou cidadã cometer com mente prevenida e olhos abertos.
*Cientista político e professor da UFBa

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