As plataformas digitais solapam os ideais de igualdade
nos Estados Unidos celebrados pelo chanceler francês
As turbulências trumpistas que assolam a sociedade e a
política do Grande Irmão do Norte recomendam uma revisita a Alexis de Tocqueville.
Ele escreveu na Introdução de seu livro, o clássico Democracia na América:
“Entre os novos objetos que, durante minha estada nos Estados Unidos, chamaram minha
atenção, nenhum me impressionou tanto quanto a igualdade de condições. Descobri
sem dificuldade a influência prodigiosa exercida por esse primeiro fato no
andamento da sociedade; ele confere ao espírito público uma certa direção, um
certo curso às leis; aos governantes, novas máximas; aos governados, hábitos
particulares”.
Na era Trump, o espírito público celebrado
por Tocqueville transfigurou-se no poder privado das big techs. Peter
Thiel argumentou que “talvez se pudesse realmente mudar o mundo unilateralmente
– sem precisar constantemente convencer as pessoas, implorar e implorar para
pessoas que nunca concordariam com você – por meios tecnológicos… a tecnologia
é uma alternativa incrível à política”.
Rachel Leigang, correspondente do jornal The Guardian
nos Estados Unidos, entrevistou norte-americanos revoltados com suas condições
de vida. Brian Leeland, eleitor democrata de 79 anos de Detroit, confessou
à jornalista que não aguenta mais. Ademais, declarou-se frustrado com a forma
como a mídia dos EUA cobre esta era política conturbada. Leeland não está só
em sua cruzada contra os abusos e malfeitos de Trump.
Os eleitores não têm condições de pagar por assistência
médica ou creche. Os preços dos alimentos e da gasolina continuam a subir,
enquanto os mais ricos continuam a enriquecer. Agricultores e pequenos
empresários enfrentam tarifas e uma guerra comercial. Moradores de pequenas
cidades protestam contra a instalação de data centers. Eles não querem que os
EUA se envolvam em guerras no exterior. Os direitos das mulheres e o acesso ao
aborto estão em retrocesso.
Em artigo recente no Substack, o ex-secretário do Trabalho
Robert Reich não trepidou em afirmar que a força mais poderosa na política
norte-americana é a fúria anti-establishment contra um sistema visto como
manipulado contra o trabalhador comum. A Inteligência Artificial tornou-se o
exemplo perfeito. Até recentemente, ambos os partidos evitavam criticar as
elites corporativas ricas que financiavam suas campanhas. Na natureza, como na
política, não se morde a mão que alimenta. Nos estertores de seu mandato, Joe
Biden não hesitou, porém, em denunciar que uma oligarquia se formava na
América, “de extrema riqueza, poder e influência, que literalmente ameaça toda
a nossa democracia, nossos direitos e liberdades básicos, e uma chance justa de
todos progredirem”. Biden disse estar “igualmente preocupado” com uma emergente
“tecno-oligarquia”.
Quando perguntaram ao ex-ministro grego Yanis Varoufakis
sobre o déficit democrático na União Europeia e nos Estados Unidos, ele soltou
uma gargalhada e disse: “Déficit democrático? Não se tem democracia. A
democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham
participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais.
Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não
é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo”.
Biden, nos estertores do mandato, denunciou o
surgimento de uma “tecno-oligarquia” que ameaça a democracia
Enquanto isso, os republicanos de Trump direcionaram sua
fúria populista contra imigrantes, LGBTs, negros e latinos, “comunistas”,
muçulmanos, os chamados líderes “progressistas”, “elites costeiras”, “mulheres
sem filhos que têm gatos” e outros bodes expiatórios. Aqui cumpre relembrar as
palavras de Franklin Delano Roosevelt no Congresso do Partido Democrata, em
1936. O pai do New Deal discursou sobre as ameaças da oligarquia
financeira para a sociedade: “Era natural e talvez humano que os príncipes
privilegiados dessa nova dinastia econômica, sedentos por poder, tentem
alcançar o controle do próprio governo. Eles criaram um novo despotismo e o
embrulharam nos vestidos de sanções legais. Em seu serviço, novos mercenários
procuraram regimentar o povo, seu trabalho e sua propriedade”.
A diatribe de Franklin Delano sobre os ricos e
poderosos prosseguiu: “Novos impérios foram construídos a partir do controle
das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da
riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do
trabalho e do capital – nada disso sonhado pelos fundadores da pátria –, a
estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza.
Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos
negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema americano
de livre iniciativa e busca do lucro”.
O governo Roosevelt contou com a preciosa participação de
Ferdinand Pecora, conselheiro da Comissão do Senado que investigava os
banqueiros envolvidos na crise de 1929. A estratégia de Pecora era
personalizar os abusos que levaram a economia ao colapso, e ele começou pelo
topo. Sua primeira testemunha foi Charles E. Mitchell, presidente e diretor
executivo do National City Bank, hoje Citibank, na época a maior e mais
prestigiosa instituição financeira do país. Mitchell era considerado
intocável. Quando Pecora terminou de pressioná-lo, Mitchell renunciaria em
desgraça e faria um acordo para encerrar uma acusação criminal por sonegação
fiscal, pagando uma multa de 1 milhão de dólares.
A política econômica de Roosevelt significou a vitória do
indivíduo-cidadão sobre o individualismo selvagem daqueles que enriqueceram à
farta nos ciclos anteriores de prosperidade. O cidadão-trabalhador não deveria
mais ficar à mercê das idiossincrasias do mercado, dos caprichos do processo de
concorrência.
Nos Estados Unidos da era Trump, o comportamento
decepcionante dos rendimentos da maioria reafirma a importância do encolhimento
dos sindicatos, sobretudo a redução no número de sindicalizados, o crescimento
do trabalho em tempo parcial e a título precário e a destruição dos postos de
trabalho mais qualificados na indústria de transformação, sob o impacto da
concorrência chinesa.
O lento crescimento da renda das famílias de classe média
padeceu as dores do aumento das horas trabalhadas e, portanto, do tempo livre
disponível para fruir as benesses da vida social. Não resta sequer a ilusão de
que a maior desigualdade foi compensada por maior mobilidade das famílias e dos
indivíduos, desde os níveis mais baixos até os mais elevados da escala de renda
e riqueza.
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de
setembro de 2026.
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