O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos
na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas políticas.
Os últimos dias de campanha trazem novas discussões, mais
debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país. Discute-se se o
voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece improvável — ou se
Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do Brasil. Perde-se tempo
numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada, quanto mais disputada.
O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos nesse tipo de embate,
que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em casos pontuais e não
institucionais.
O país é laico, mas não é imune a mentiras
grosseiras. Por isso, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal
(STF), não deveria ter se intrometido, à custa de um desvio jurídico, para, a
pretexto de defender a liberdade de expressão, defender, na verdade, a difusão
de notícias falsas. Um ministro do Supremo interferir em decisão do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) é sinal claro de que a disputa pelo poder está aberta.
Quantas notícias menos prejudiciais como essa foram retiradas do ar pelo famoso
inquérito das fake news nos últimos sete anos?
A exibição do lado eleitoral das decisões dos ministros dos
tribunais superiores era suposta, mas não tão explícita como agora. E tem
deixado a sociedade descrente da Justiça. Pior ainda, transforma as decisões
monocráticas dos ministros do STF em parte da campanha. A cada decisão do
ministro tal, o outro lado espera resposta do ministro qual, a ponto de o STF
ter passado a fazer parte da campanha, com dois grupos se digladiando em
público.
A disputa da eleição presidencial está e será acirradíssima.
Tudo indica que movimentações internas nas pesquisas mostram avanços de Lula,
mas em alguns setores ele perde, e Flávio avança. No final das contas, fica
tudo empatado.
O debate da Globo poderá ser definitivo. Flávio já disse que
vai e desafiou Lula, ainda em dúvida. A eleição está muito apertada para ele
abrir mão da possibilidade de exposição no horário nobre da Globo. Ficará mal
para ele se não for. Será uma admissão de fraqueza, e o debate pode definir o
empate do segundo turno. Tudo indica que ele está achando um absurdo ter de
disputar e debater com Flávio. Está surpreso com a pontuação dele nas
pesquisas. Isso abala muito quem tem uma vida política exitosa e não entende
por que não está com posição mais tranquila do que aparece nas pesquisas.
Lula indiscutivelmente é um dos grandes líderes populares do
Brasil. Chega ao final da carreira política, aos 80 anos, desafiado pelo filho
do adversário, que não tem nenhuma história política para justificar essa
posição. É o fantasma do pai de Flávio que disputa a eleição; não o próprio
Flávio. E essa é a diferença. O grupo político petista acha que Lula não deve
ir, porque será atacado por todos os lados pelos outros concorrentes, todos
potenciais aliados de Flávio no segundo turno. Mas a participação no debate foi
decidida pelas regras do TSE, não há como mudá-las.
Além do mais, se a esquerda tem apenas Lula como
representante, essa é uma limitação imposta pela própria política eleitoral do
PT, que não compreende uma aliança alargada para a centro-direita. Só quando
subordinada ao petismo. Por isso a propalada união nacional proposta na eleição
de 2022 por Lula não se realizou. A direita, em contrapartida, deu um exemplo
de unidade em São Paulo, com a retirada da candidatura do ex-ministro
bolsonarista Ricardo Salles ao Senado, para possibilitar que as duas vagas em disputa
sejam ocupadas por seus candidatos.
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