Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula
preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo
voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor.
Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e
pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as
pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao
menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que
proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro
turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro.
Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus
registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada
anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de
Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante
das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha
produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para
cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate
técnico.
A proibição das bets é a iniciativa com
maior potencial de atingir a vida cotidiana. Na noite de sexta-feira, 25, Lula
editou uma medida provisória que alcança apostas esportivas e jogos online. Ela
proibiu novos aportes nas plataformas, fixou prazo para a retirada dos saldos
pelos usuários e determinou que sites e aplicativos saiam do ar a partir de 6
de outubro. A decisão responde ao endividamento e aos danos à saúde associados
ao jogo, mas também abre uma disputa sobre sua execução, o mercado ilegal e os
efeitos sobre empresas e clubes patrocinados pelo setor, que já foi parar no
Supremo Tribunal Federal (STF. Em termos eleitorais a polêmica vem sendo boa
para Lula.
A Quaest ouviu eleitores de 24 a 27 de setembro, e a Nexus,
de 25 a 27. Ambas captaram, portanto, apenas parte da repercussão da medida
anunciada na sexta-feira à noite. Ainda é possível que Lula obtenha até domingo
algum benefício adicional entre famílias atingidas pelas apostas, mesmo que a
medida provisória seja derrubada ou sustada pelo ministro Luiz Fux, relator do
caso no STF.
A controvérsia religiosa tem dinâmica diferente. Circulou nas redes a
informação falsa de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de
padroeira do Brasil. O candidato negou a hipótese, e a GloboNews corrigiu a
referência a um antigo projeto, apresentado por outro parlamentar e arquivado
em 2008. A disputa ganhou novo capítulo com decisões judiciais sobre a remoção
de publicações e a liberdade de expressão. No domingo, questionado sobre o
boato, Lula disse não saber se a informação era falsa, o que deu à campanha
adversária mais um argumento para reagir.
Um levantamento sobre as conversas digitais entre 24 e 26 de
setembro encontrou críticas à divulgação do boato em proporção superior à
indignação com a suposta ameaça à padroeira. Outro monitoramento, feito num
momento anterior da circulação, havia apontado maior pressão sobre Flávio. A
pesquisa eleitoral, por enquanto, não demonstra perda expressiva de Flávio nem
ganho expressivo do presidente por causa dessa disputa.
Já a crise do STF e o caso Master têm uma força de inércia mais longa. Não
dependem de uma única postagem ou declaração: investigações, decisões judiciais
e novas revelações podem recolocá-los no centro da campanha a qualquer momento.
Flávio explora o desgaste da Corte e tenta associá-lo a Lula; o presidente
procura se distanciar dos ministros envolvidos e lembrar as conexões do
banqueiro Daniel Vorcaro com o campo adversário. Na Quaest da semana passada,
62% afirmaram que a crise no Supremo não influenciava seu voto.
Disputa pelas bordas
O principal freio a qualquer reviravolta está na consolidação dos votos. Na
Nexus, 87% dos entrevistados que escolheram um candidato disse ter a decisão
tomada, ante 84% na semana passada. Entre os eleitores de Lula, são 92%; entre
os de Flávio, 91%. Apenas 2% não indicaram um nome no primeiro turno, embora
12% dos que escolheram alguém admitam mudar. Mas dificilmente converterão, em
grande número, apoiadores convictos de um polo ao outro.
Os dados estatísticos mais relevantes estão nas demais
candidaturas. Na Quaest, Augusto Cury caiu numericamente de 6% para 4%, Caiado
permaneceu com 4%, Renan Santos com 3% e Zema com 1%. Na Nexus, Cury e Caiado
têm 5% cada, Renan, 4%, e Zema, 1%. Não se pode atribuir a oscilação de Cury a
uma polêmica nem identificar para onde teriam ido seus antigos eleitores. Pode
estar começando uma onda de “voto útil”.
Se houver segundo turno entre Lula e Flávio, a disputa
central será por corações e mentes desse grupo. Um recorte do Datafolha mostrou
que, entre os eleitores somados de Cury, Caiado, Renan e Zema, 43% escolheriam
Flávio; 30%, Lula; e 26%, branco, nulo ou nenhum. Essa vantagem ajuda a
explicar o empate nas simulações finais, apesar da liderança inicial do
presidente.
Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no
primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo “voto útil”. A proibição das
bets ainda pode render apoio ao presidente; o boato sobre Nossa Senhora de
Aparecida perde força, mas provocou um litígio religioso. E o Master continua
assombrando o Supremo. As pesquisas revelam forte inércia nos dois polos e uma
disputa ainda aberta nas bordas. Lula chega mais bem colocado para vencer a
primeira etapa. Flávio mantém condições de equilibrar a segunda. Só falta
combinar com o eleitor.
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