Quem decide é quem ainda não vestiu a camisa de nenhum
time: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível
Rato de estádio como eu sabe que em jogo apertado ninguém
comemora antes do apito final. Muita torcida já soltou foguete aos 44 do
segundo tempo e voltou para casa calada. Pesquisa é placar de intervalo, não é
taça. Na Quaest,
Lula lidera o primeiro turno por 36% a 29% e empata o segundo em 41% a 41%. Os
dois carregam uma rejeição enorme: 53% não votariam em Lula, 55% não votariam
em Flávio. Flávio pode vencer, e Lula pode perder, mas nenhuma das duas frases
é resultado consumado.
Eleitores de ambos fazem críticas parecidas
sobre segurança, saúde, economia e corrupção, pagam pela mesma comida,
enfrentam a mesma fila e conhecem alguém endividado. Sobre esses mesmos
problemas, os dois lados oferecem instrumentos diferentes: proteção social,
presença do Estado e salário, de um lado; autoridade, controle de gastos e
liberdade econômica, do outro. Quando o diagnóstico é comum, a eleição muda de
natureza. Deixa de ser sobre o que fazer e vira uma disputa sobre em quem
confiar para fazer.
Lula sofre o desgaste de quem governa, mas não só. A crise
do STF ajuda
a direita a construir uma narrativa, porque credibilidade se perde por
associação. Só que o buraco principal está mais perto da mesa que dos
tribunais. Metade da população desaprova o trabalho do presidente, 49% dizem
que a economia piorou, e 28% afirmam estar muito endividados. O indicador pode
melhorar, mas a urna não pergunta pelo PIB. Pergunta, em
silêncio, se o dinheiro chegou ao fim do mês.
Flávio precisa convencer quem rejeita Lula sem assustar quem
também rejeita o bolsonarismo e mostrar que representa mudança sem significar
uma nova temporada de conflito permanente. Sua candidatura cresce quando
transforma indignação em alternativa e encontra teto quando parece continuação
da guerra do pai. Lula precisa fazer o caminho contrário: mostrar que ainda
pode ser mudança estando no governo, falar de segurança sem mudar de assunto,
reconhecer a frustração econômica sem apresentar planilha e defender as
instituições sem parecer defensor dos privilégios de quem as ocupa.
Nas favelas, o recado chega sem filtro e já tem trilha
sonora há 30 anos. Em 1994, Cidinho e Doca lançaram o “Rap da Felicidade” e
resumiram tudo numa linha que o país inteiro sabe cantar: Eu só quero é ser
feliz. O que vinha em seguida era o pedido de andar em paz no lugar onde se
nasceu. O refrão saiu do baile, entrou no estádio, virou jingle de campanha e
continua sem resposta. O desejo mais citado hoje é o mesmo da música: poder ir
e vir com tranquilidade, antes de moradia, saúde, saneamento, educação e renda.
A esquerda traduz isso como política pública; a direita como punição. Nenhuma
das duas traduz como o que é: um direito básico que o Estado nunca garantiu
naqueles territórios, sob nenhum governo.
A eleição vai para a prorrogação porque os dois lados têm
torcida, camisa, hino e adversário marcado. Só que prorrogação não se ganha na
arquibancada, se ganha com perna cansada e cabeça fria, e quem decide é quem
ainda não vestiu camisa nenhuma: o eleitor cansado, desconfiado e ainda
disponível, que não procura um salvador, procura algum controle sobre a própria
vida. Comida que caiba no orçamento, segurança sem espetáculo, serviço público
que funcione e um governo que não transforme todo dia numa nova guerra. A
torcida organizada faz mais barulho, mas gol se faz dentro de campo. Ganha quem
conseguir diminuir o medo antes de tentar aumentar a esperança.
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