Instituições da universidade não tiveram coragem de
enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força tal agressão em
suas dependências
Em 1630, a cidade de Milão foi
atingida por uma devastadora epidemia de peste bubônica. Numa manhã de junho,
duas mulheres viram pela janela um homem passar a mão num muro. Era Guglielmo
Piazza, comissário de saúde, que limpava os dedos sujos de tinta. Piazza foi
denunciado e preso como untore, um espalhador de peste.
Torturado, prometeram-lhe impunidade se entregasse
cúmplices. Ele terminou denunciando o barbeiro Gian Giacomo Mora, que produzia
uma pomada para proteger do contágio— e passou a ser acusado de tê-la fabricado
para espalhar a peste. Mora foi preso, torturado e também confessou. Os dois
foram levados por uma carroça pelas ruas e submetidos a suplícios violentos. A
casa do barbeiro foi arrasada. Sobre o terreno ergueu-se uma coluna com a
inscrição do crime, a “coluna infame”.
Passaram-se 200 anos até Mora e Piazza
serem moralmente reabilitados no famoso ensaio histórico de Alessandro Manzoni
“História da coluna infame” (Editora Unesp). Manzoni não se limitou a denunciar
o linchamento, mas apontou a complacência das instituições e dos juízes que
mentiram, abusaram do poder, violaram as leis e usaram dois pesos e duas
medidas. A injustiça contra Mora e Piazza não foi causada pela irracionalidade
da multidão, mas pela racionalidade das instituições. A leitura do ensaio de
Manzoni não poderia ser mais oportuna.
Há duas semanas escrevi aqui na coluna sobre a agressão
contra Diego Araújo, o estudante de História da UFRJ arrancado da sala de aula
por uma turba sob a acusação de fazer apologia ao nazismo. Ele foi agredido em
três momentos por mais de dez pessoas até ser expulso do prédio onde estudava.
Depois de linchado com socos e pontapés, foi linchado moralmente numa campanha
de difamação sórdida e covarde. Reportagens posteriores e o avanço das
investigações permitem ver agora como as instituições agiram não apenas para
não punir os agressores, mas também para imputar culpa à vítima, duplicando a
agressão a Diego Araújo.
Quando o escândalo eclodiu, nenhum elemento sustentava as
alegações dos agressores de que haviam expulsado da universidade um provocador
nazista. Naquele momento, tudo o que havia eram dois vídeos. No primeiro, Diego
exibia um broche antinazista e explicava que a caveira da SS na sua camiseta
tinha função crítica, como faziam artistas “como David
Bowie”. No segundo vídeo, mais de dez pessoas espancavam um Diego tombado
na escada. Apesar de tudo indicar que a turba não foi capaz de entender a
simbologia antinazista e que tinha resolvido fazer justiça com as próprias
mãos, uma onda de solidariedade institucional com os agressores se disseminou
na universidade.
No mesmo dia das agressões, uma postagem em
colaboração entre a UNE e o DCE da UFRJ reiterava a tese do estudante com
símbolo nazista “retirado” da universidade. UFRJ e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais soltaram
notas ambíguas criticando o nazismo e a violência. Os diversos sindicatos e
movimentos sindicais — Sintufrj, Asduerj e CSP-Conlutas —
se solidarizaram com os agressores e condenaram o nazismo, o racismo e o
fascismo. Embora o linchamento estivesse documentado e a apologia ao nazismo
fosse alegada e contestada, as instituições da UFRJ não tiveram coragem de
enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força um linchamento em
suas dependências.
O que veio depois foi pior. Um manifesto de “docentes em defesa da UFRJ”, com mais de 200
assinaturas, inclusive de um ex-reitor, posicionou-se “em solidariedade aos
estudantes agredidos por um neonazista” e repudiou “a caracterização da reação
de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento”. Um grupo de pesquisa
em direitos humanos ponderou que “a violência do oprimido não é a violência do
opressor” e que “uma reação coletiva de estudantes diante de símbolos que
celebram o extermínio” não pode “ser lida na mesma chave que o gesto que a
provoca”. (Agradeço ao projeto Disputas por Expressão nas Universidades, da
UFF, pelo levantamento dessas manifestações.)
Como no episódio da coluna infame, a injustiça não foi
causada pelo furor da multidão, mas pelo endosso racionalizado das
instituições. Manzoni diz que os magistrados de Milão buscavam “os culpados de
um delito que não existia, mas que se desejava”. Aqui também nossos
antifascistas encontraram um culpado para um crime que precisavam combater. O
mais inquietante, no caso de Diego Araújo, não é que uma multidão tenha se
convencido de que fazia justiça, mas que tantas instituições tenham se
empenhado em convencê-la de que tinha razão.

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