Ao amigo Paulo Pace, amigo da trincheira democrática.
Vinte anos depois de seu lançamento, Filhos da Esperança
(2006), dirigido por Alfonso Cuarón, parece menos uma distopia do que um
telejornal adiantado. Em 2027, a humanidade tornou-se infértil e a Inglaterra
anuncia ser a última sociedade ainda de pé. Contudo, o que permanece
funcionando são as jaulas para imigrantes, a propaganda oficial e as tropas nas
ruas. Theo (Clive Owen), funcionário público desencantado e ex-militante,
recebe a missão de conduzir Kee, uma jovem refugiada e grávida, até um lugar
seguro. Os longos planos-sequência de Cuarón nos colocam dentro dos ataques e
campos de refugiados. A extrema direita retratada pelo filme não precisa abolir
formalmente o Estado; basta esvaziá-lo de solidariedade e conservar sua carcaça
policial. A distopia, afinal, não bateu à porta: entrou, sentou-se na sala e pediu
a senha da internet.
A infertilidade do filme não é apenas
biológica. Uma sociedade torna-se estéril quando perde a capacidade de cuidar e
imaginar o futuro. A derruição do Welfare State, promovida em nome da
austeridade, não faz o Estado desaparecer: transforma hospitais, escolas,
aposentadorias e políticas de proteção em despesas suspeitas, enquanto
fronteiras, presídios e aparatos repressivos permanecem livres de qualquer
dieta fiscal. No Brasil, esse conflito encontra sua trincheira na Constituição
de 1988, que reconheceu saúde, educação, trabalho, moradia, previdência e
assistência como direitos sociais — direitos, cumpre lembrar, e não favores
concedidos conforme o humor do mercado (BRASIL,
1988, art. 6º). Foi esse pacto que o projeto de Jair Bolsonaro e Paulo
Guedes tratou como obstáculo. Em outubro de 2018, Guedes resumiu sua posição
com sinceridade: “Esse modelo social-democrata é ruim”, associando-o ao baixo
crescimento e defendendo sua substituição (ISTOÉ
DINHEIRO/AFP, 2018). Não era uma divergência contábil, mas uma disputa
sobre o significado da Constituição Cidadã: para uns, um programa civilizatório
inconcluso; para outros, uma coleção de despesas inconvenientes.
Entretanto, Filhos da Esperança não termina submetido
ao fatalismo. Quando o choro do bebê interrompe o combate no campo de
refugiados, soldados, perseguidos e insurgentes reconhecem algo comum antes de
voltarem a atirar. A esperança nasce de Kee, mulher negra, pobre e refugiada,
mas somente sobrevive porque ao seu redor se forma uma cadeia improvável de
proteção: um ex-militante cansado, uma parteira, antigos ativistas e
funcionários dissidentes. Até os Peixes, organização revolucionária que combate
o regime, desejam apropriar-se da criança e convertê-la em instrumento de
poder, lembrando que uma causa justa não torna justos todos os seus métodos. A
tarefa democrática exige reunir aqueles que defendem a Constituição de 1988, os
direitos sociais, a liberdade, a ciência e a dignidade humana, mesmo quando
divergem sobre economia, costumes ou velocidade das reformas. Contra a extrema
direita, não basta oferecer outra comunidade de puros, com seus certificados de
virtude e tribunais de ocasião. É necessário reconstruir um espaço comum suficientemente
amplo para que o futuro consiga nascer e permanecer vivo. Por isso, em sua
lição política mais profunda, Filhos da Esperança aposta numa Frente
Democrática, não numa Frente de Esquerda.
*Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política
(UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e
professor de História na educação básica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário