Espanta a naturalidade com que o miliciano se refere ao
filho 01: nosso senador
Casos de desvio de emendas estão ligados à infiltração de
bandidos na política
Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu
duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o
estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como
"grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.
O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da
disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão —crise
do STF, Lulinha,
vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das
famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.
O Congresso, que deverá ter baixa
renovação, agradece o refresco. Prepara a proposta orçamentária de 2027
prevendo que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá
em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo. Não é mais
uma farra, uma baderna institucional.
É preciso arranjar outra palavra para descrever a voracidade
de deputados e senadores, os donos do país.
Apesar das denúncias na imprensa e de mais de cem inquéritos no STF, os casos
de desvio de finalidade e corrupção se multiplicam. O mais recente aponta o
senador Flávio
Bolsonaro, um candidato a presidente da República campeão de escândalos.
O filho 01 mandou uma emenda de quase R$ 200 mil para Robson
Calixto, o Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte de Marielle
Franco. O dinheiro foi destinado a um projeto de escolinha de futebol no
bairro da Taquara, área de influência do ex-deputado Chiquinho Brazão e do
conselheiro do TCE Domingos Brazão —condenados pela morte da vereadora.
A convivência da família Bolsonaro com milícias não é
novidade. Pelos diálogos coletados pela PF no celular do Peixe (gíria carioca
usada para se referir a alguém de confiança), nota-se a naturalidade com que a
transação é realizada: "Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos
ajudar".
Flávio Bolsonaro desenhou o mapa da mina: desvio de emendas
e infiltração do crime organizado na política convergem para o mesmo ponto.
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