É extremamente preocupante que um candidato à Presidência
tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano
condenado pelo Supremo pela morte de Marielle
Este jornal informou na primeira página de sua edição de
ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou
pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de quase
R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas.
A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse candidato à Presidência da
República e se o tal “Peixe” fosse um sicário qualquer, desses com os quais a
população do Rio de Janeiro, lamentavelmente, acostumou-se a conviver. Ocorre
que Flávio não só é candidato, como tem boas chances de ser eleito. E “Peixe”,
definitivamente, não é um ilustre desconhecido do sistema de Justiça.
Em fevereiro deste ano, por unanimidade, “Peixe” foi
condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em regime fechado
por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de
seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado era uma
espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes do
crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital fluminense de onde
saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos cumprem pena presos.
É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um
candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um
criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar, confrontado com um fato
dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta protocolar, afirmando,
por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e
que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem recebe os recursos,
não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador
e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.
Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar do tema
com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde quer que
ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos milicianos do
Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o seu primeiro
mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre Flávio e
“Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.
Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à tribuna da
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as milícias
como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado estadual
reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e bombeiros
corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a dizer que
“não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às milícias para
“ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar dezenas de milicianos,
pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na Alerj familiares de um
dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia
Escritório do Crime, baseada em Rio das Pedras.
Adriano seria morto durante troca de tiros com a polícia em
2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o grupo criminoso que
ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de Marielle Franco,
sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela negociação do tal
“Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.
Estamos a poucos dias da eleição que definirá o futuro
presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os postulantes à
chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia política está
indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e jamais
devidamente explicados – com membros de organizações criminosas responsáveis
por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e controle
social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do Rio de Janeiro.
Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição
para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça
Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das
milícias ao topo do poder da República.
Nenhum comentário:
Postar um comentário