Em quase 70 anos de carreira, jornalista percorreu o país
"para olhar e depois contar"
Zuenir Ventura estava em Paris em agosto de 1961, quando
Jânio Quadros renunciou à Presidência e deixou o Brasil à beira do abismo. Pego
de surpresa em viagem à China, o vice João Goulart arrumou as malas para voltar
ao país. Ainda não sabia se seria empossado ou preso por militares golpistas.
Em escala na capital francesa, o trabalhista se viu diante
de outro impasse. Ele não falava o idioma local, e os jornalistas não entendiam
uma palavra de português. Sobrou para o correspondente da Tribuna da Imprensa,
que precisou se virar como tradutor.
“Essa história de intérprete foi meio
folclórica”, diria Zuenir, que saiu em jornais do mundo inteiro ao lado do
futuro presidente. Modesto, ele brincava que a função deu mais trabalho do que
notícia. “Passei três dias e três noites quase sem dormir e, pior, sem tomar
banho”, anotou, tempos depois.
Avesso à autocelebração, o repórter batizou seu livro de
memórias com um título que dizia muito sobre sua personalidade: “Minhas
histórias dos outros”. “Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou
condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos
promotores, somos jornalistas, somos testemunhas de nosso tempo”, escreveu.
Antes de pisar numa redação, Zuenir ralou como pintor de
parede, faxineiro de bar, balconista e office boy. Em quase 70 anos de
carreira, viu o Brasil atravessar múltiplas crises políticas, econômicas e
existenciais.
“Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o
país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados,
anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o
arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia”,
resumiu.
Ele sabia o valor dessa luta. Na ditadura, foi perseguido e
preso, embora nunca tenha militado em partidos políticos. Fiel à máxima de que
lugar de repórter é na rua, Zuenir já era referência na profissão quando foi ao
Acre cobrir o assassinato de Chico Mendes, cruzou o sertão na Caravana da
Cidadania e acampou em Vigário Geral para entender e explicar a cidade partida.
Em sua última coluna no GLOBO, em 2022, ele lamentou que o
Brasil ainda fosse um país “preconceituoso e racista”. Bem diferente do paraíso
tropical que seus amigos franceses idealizavam no tempo de Pelé e Garrincha.
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