Supremo se reuniu, mas não tratou do assunto. Havia muita
tensão no ar. O presidente do STF, Edson Fachin, reconheceu a gravidade da
situação
Descendente de escravizados, Lima Barreto (1881-1922) foi um ponto fora da
curva na literatura brasileira. Negro, pobre e vítima de preconceito, conheceu
por experiência própria os mecanismos de exclusão da República recém-instalada.
O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909) e Triste fim de
Policarpo Quaresma (1015) denunciou o o racismo, o bacharelismo, o arrivismo
político e a distância entre as instituições e a sociedade.
Em Os Bruzundangas (1922), sua obra mais política, Lima Barreto construiu uma
sátira devastadora dos primórdios da República, que permanece atual um século
depois. Imaginou um país cuja Constituição proclamava direitos universais, mas
continha uma cláusula destinada a proteger os poderosos da “situação”. A
Justiça de Bruzundanga era chamada de “Chicana”.
Sua Suprema Corte não começava pelo exame
da lei, mas pela identidade das pessoas que poderiam ser atingidas. “Havia
artigos muito bons, como por exemplo o que determinava a não acumulação de
cargos remunerados e aquele que estabelecia a liberdade de profissão; mas,
logo, surgiu um deputado prudente que estabeleceu o seguinte artigo nas
disposições gerais: ‘Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os
interesses de parentes de pessoas da “situação” ou de membros dela, fica
subentendido que ele não tem aplicação no caso’.”
A analogia com a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) é
pertinente, embora não possa ser levada ao extremo de negar a existência das
garantias constitucionais ou de antecipar a culpa dos envolvidos. A sátira
ilumina o dilema central da Corte no caso Master: saber se as leis serão
aplicadas com o mesmo rigor quando as suspeitas alcançam integrantes das
instituições encarregadas de aplicá-las.
O ministro André Mendonça tornou público relatório da
Polícia Federal (PF) que reúne mensagens extraídas do celular de Daniel
Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que teria enviado comunicações a
Alexandre de Moraes no período mais crítico das investigações. “Não conseguimos
reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou. Em outra mensagem, quis saber
se “com Andrei dá pra segurar”. Pouco antes de ser preso, questionou:
“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
A PF interpreta que “Paulo” seria o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e “Andrei”, o diretor-geral da corporação, Andrei
Rodrigues. As mensagens revelam o que Vorcaro pretendia, porém, as respostas
atribuídas a Moraes não foram recuperadas. Essa ausência não elimina a
necessidade de esclarecimentos. O caso se tornou mais grave com a revelação de
que Moraes participou da análise da minuta do contrato entre o Banco Master e o
escritório Barci de Moraes, dirigido por sua mulher, Viviane Barci de Moraes. O
contrato previa pagamentos milionários.
Paradoxos
O escritório sustenta que o ministro foi consultado apenas
para verificar possíveis impedimentos legais. Mas isso não encerra a questão
ética. É necessário esclarecer a extensão da participação do magistrado, os
serviços efetivamente prestados e a existência de eventual conflito de
interesses. O conjunto de mensagens, encontros e relações contratuais é
incompatível com o silêncio.
A reação da PGR aprofundou o impasse. Gonet pediu a anulação
das provas que citam Moraes, sob o argumento de que Mendonça não teria
competência para determinar investigações contra outro ministro e de que cabe
ao Ministério Público conduzir a persecução penal. Provas obtidas fora das
regras de competência de fato podem ser anuladas. Mas o fato de o próprio
procurador-geral aparecer nas mensagens torna insuficiente a resposta limitada
à nulidade.
Surge o paradoxo da Bruzundanga: se Mendonça não pode
conduzir a apuração e se a PGR, atingida pelas referências, pretende
invalidá-la, quem investigará os fatos com independência? A proteção das
prerrogativas processuais não pode impossibilitar a investigação dos fatos.
Caso isso ocorra, é aquela “elasticidade extraordinária” denunciada por Lima
Barreto.
Ontem, surgiu a informação de que Mendonça teve um encontro
com Vorcaro antes de tornar-se relator do caso e, recentemente, colheu
depoimento do banqueiro, que denunciou supostas ameaças e intimidações da PF. E
o plenário do Supremo se reuniu, mas não tratou do assunto. Havia muita tensão
no ar. O presidente do STF, Edson Fachin, antes da reunião, reconheceu a
gravidade da situação e advertiu que a Corte impõe “deveres, limites e
responsabilidades”.
Fachin pode assegurar um exame colegiado do caso. O Plenário
pode reorganizar a investigação. Moraes deveria prestar esclarecimentos,
entregar documentos e se afastar dos processos relacionados ao Master. Se a
apuração for sufocada ou conduzida como guerra interna, com vazamentos e
retaliações, o Supremo mergulhará numa crise ainda mais destrutiva.

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