BC baixou Selic de novo, mas não tem quase nada a fazer
diante de ameaça de crise
Se novo governo não agir logo, excesso de endividamento
tende a piorar
O Banco Central não
tem lá muito o que fazer de relevante nos próximos meses, a não ser que tomasse
atitude tresloucada (não vai tomar) ou na hipótese improvável de recessão
súbita neste ano ou caso tivesse de enfrentar crise financeira importada dos
EUA, que talvez fique para fins de 2027.
O BC não tem lá muito o que fazer desde fins de 2024, na
verdade, a não ser aumentar a Selic e
deixá-la ao menos em nível de arrocho, "restritivo". Em meados de
2024, morreu a expectativa de que se contivesse parte da alta de gastos
de Lula 3.
Depois, vieram repiques de inflação, o
pânico financeiro da virada para 2025, a guerra contra o Irã etc.
Nesta quarta (16), o Banco Central diminuiu
a Selic de
14% ao ano para 13,75%. Pode ser que corte mais o mesmo tanto na próxima
reunião para tratar da taxa básica, no começo de novembro, quando coisa muito
mais grave já pode ter acontecido com o país —depois da eleição.
Selic baixando a 13,5% também não importa muito, até porque,
no início do ano, a projeção dos economistas de "o mercado" era de
uma taxa ainda horrível de 12% no final deste 2026, para lembrar um aspecto
mais simples desse problema.
Além do mais, estão em níveis horrorosos as taxas de juros para
prazos mais longos, que definem parte do custo da dívida do governo e de
financiamentos diversos no mercado.
A taxa de juros que a média das leitoras paga para financiar
compras ou renegociar dívidas vai mudar muito pouco até bem entrado o ano de
2027 —com sorte.
As taxas de juros que o governo paga para financiar seu
déficit, para financiar os juros que não têm dinheiro para pagar e para rolar a
dívida que vence vão mudar também muito pouco, no que diz exclusivamente
respeito ao BC.
Isso quer dizer que levará tempo para pessoas e empresas
purgarem suas dívidas altas —porque são altas, por causa de juros caindo
devagar e pelo nível de preços ainda alto. Com sorte, levaria um par de anos
para algum alívio. Mas esse alívio vai ficar mais difícil porque, mui
provavelmente, o salário médio vai crescer mais devagar no ano que vem, se
crescer, assim como o número de pessoas empregadas (são hipóteses otimistas). A
economia desacelera agora um pouco mais rápido.
Nessa situação, em tese inflação e expectativas de inflação
baixariam também. O BC poderia então tomar uma atitude mais incisiva quanto à
taxa de curtíssimo prazo (a Selic).
Pode não ser assim. Muitíssimo vai depender do programa
econômico do próximo presidente da República, afora desastres (crise financeira
nos EUA, El
Niño do fim do mundo, colapso de preço de commodities, revolta dos
robôs assassinos etc.).
Não é impossível que tenhamos uma economia passando a
crescer 1% ao ano ou menos e inflação esperada ainda muito fora da meta, com
Selic alta e também taxas de prazo mais longo perto das alturas em que estão
hoje, asfixiantes.
Ainda que o próximo governo, seja ele qual for, tome medida
paliativa de maior impacto ou até proponha reforma maior, é possível que, de
imediato, o efeito de contenção de gastos seja recessivo. Não dá para saber.
O que dá para saber é que, cruzando os braços ou dobrando
uma aposta errada, é enorme o risco de uma espiral negativa, de um efeito bola
de neve suja, com problemas sem solução agravando outros, em cadeia. Nem é bem
risco, na verdade. Nesse caso, vai dar errado. Com política em ruínas, ainda
pior.

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