Versão de que o desembargador seria indicado serve para o
presidente se distanciar da crise no STF
Interessa ao governo se associar à boa imagem do
governador interino livre de compromissos políticos
Governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto faz
uma limpa na administração estadual porque não tem compromissos políticos a
serem atendidos.
Couto não é do ramo, mas isso em tese não o impediria de
perceber que está sendo usado na versão de que é
cogitado para ocupar a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo
Tribunal Federal.
Espera-se que o fato de ter ficado
emocionado por receber
elogios públicos do presidente da República não oblitere sua visão ao
ponto de permitir que o ego faça dele um inocente útil.
A turma palaciana de Brasília recorre ao velho truque de
plantar sementes nos ouvidos de jornalistas, fazendo circular que
"aliados" —entidade parceira das "fontes" no exercício da
imprecisão— têm sugerido ao presidente Lula (PT) a
indicação dele ao Supremo.
Os adeptos desse tipo de lavoura não escondem que o conselho
advém da necessidade ocasional de Lula de, diante das agruras que acometem
o STF,
apagar as evidências do gosto presidencial por indicações referidas no
compadrio e no uso da corte suprema como linha auxiliar da governabilidade.
Os agricultores da plantação tomam o cuidado de ressalvar
que não há nada decidido. No idioma do chamado mercado, criam um hedge, dando
margem de proteção contra decisão em contrário. No momento interessa a esse
pessoal encher a bola de um magistrado que atua
na direção do interesse público, no sentido oposto ao que se vê na
instância máxima do Judiciário.
O problema é que tal hipótese não se coaduna com o critério
de lealdade adotado pelo presidente para a ocupação da cadeira de juiz supremo
e muito menos com a independência de Ricardo Couto no exercício da interinidade
no Rio.
Não é do feitio de Lula conviver com autonomias. Tampouco é
da personalidade egoica do presidente se abster da chance de reapresentar o
nome de Jorge Messias para
apagar, num acordo com Davi
Alcolumbre (União Brasil),
o fato de ser o único presidente, desde o século 19, a
ver rejeitada uma indicação ao Supremo.

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