Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5 mil a cada
americano. A plateia aplaude
Não sei, só sei que são US$ 5.000! Diria Chicó, que estaria
feliz com a oferta de Trump. Ariano Suassuna talvez tivesse dificuldade para
imaginar uma cena melhor. Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5.000 a cada
americano adulto se os republicanos mantiverem o controle do Congresso. A
plateia aplaude. Alguém pergunta quanto vai custar. Cerca de US$ 1,2 trilhão.
De onde virá o dinheiro? Das tarifas, dizem seus defensores.
Mas elas estão arrecadando algo próximo de um décimo do necessário.
Quem exatamente receberá? Inicialmente, todos os adultos.
Depois, talvez apenas trabalhadores e classe média.
Como será aprovado? O Congresso ainda terá
de decidir. Uma promessa eleitoral que deixa de ser política econômica e passa
a ser apenas a distribuição de uma conta que ainda não existe.
A comparação chega a ser injusta com Ariano Suassuna. João
Grilo e Chicó precisavam da esperteza para sobreviver à pobreza do sertão. Os
Estados Unidos são a maior economia do mundo e emitem a principal moeda de
reserva internacional. Ainda assim, a lógica da promessa é de quiproquó:
distribuem-se US$ 5.000 antes de se explicar quem pagará a conta. Chamar de
“dividendo” não resolve o problema. Dividendo pressupõe algo para distribuir.
Essa história deixa de ser engraçada.
No teatro, a esperteza termina quando cai o pano. Na
política fiscal, a conta continua depois da eleição. Essa proposta deixou de
ser apenas uma frase espetacular de Trump. A resistência começou a aparecer
dentro do próprio Partido Republicano e entre economistas conservadores.
Eleitores de Trump começaram a repetir: “Não precisamos de US$ 5.000,
precisamos que o custo das coisas caia”.
É um verdadeiro paradoxo: o governo pretende combater a
insatisfação com o custo de vida colocando mais de US$ 1 trilhão de demanda
numa economia sem grande capacidade ociosa – correndo o risco de pressionar
novamente os preços que pretende tornar mais suportáveis. A promessa deu margem
a ironia dos adversários que lançaram a ideia de se os democratas ganharem
Câmara e Senado, todos receberão US$ 10.000, um pônei e sorvete grátis pelo
resto da vida.
É engraçado, mas economicamente contém uma pergunta séria:
por que US$ 5.000? A melhor reposta ainda é de Chicó que só sabe que são
US$5.000. Keynes talvez ficasse arrepiado. Não por ver o governo gastando –
disso dificilmente poderia acusá-lo, mas por gastar trilhão de dólares sem que
haja uma depressão para combater.
No Auto da Compadecida, as histórias mais improváveis de
Chicó sempre terminavam da mesma maneira: “Não sei, só sei que foi assim”.
Talvez nem Ariano Suassuna achasse graça. Uma coisa é fazer do absurdo uma
obra-prima. Outra é transformar a realidade em um absurdo.

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