Só depois das eleições, será possível restabelecer o
ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. No Brasil, as brigas
são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população
Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A
rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil
dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E
não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só
depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa
tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas
será a constante no cenário político brasileiro.
Há que se distinguir algumas proezas nesse
teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente
preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu
chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas
com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e
protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito
generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais
frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de
ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas
de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção
foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira
da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.
É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026.
Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o
petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra
bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na
presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição
passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República
por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no
Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião
colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate
técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.
Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de
um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por
consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e
decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político
não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O
presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável
posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para
enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O
próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se
reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela
TV Justiça?
Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe:
o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido,
está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele
pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da
Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos
juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os
supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até
daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a
classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.
O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que
seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço
secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política
brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na
Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no
quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo,
é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos
norte-americanos.
A tradição política brasileira é a conciliação, desde a
Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos.
Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora.
Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao
normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover
o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já
eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são
rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.

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