Esquema com emendas parlamentares indica uso de dinheiro
público em filme; caso ajuda a explicar aversão de Mario Frias à Lei Rouanet
A frase foi cunhada pelo dramaturgo nazista Hanns Johst:
“Quando ouço falar em cultura, saco meu revólver”. Ontem a Polícia Federal fez
buscas na casa do dublê de ator e deputado Mario Frias. Apreendeu sete
armas, incluindo uma carabina eslovaca e uma espingarda de cano duplo,
estilo Velho Oeste.
Como secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, Frias voltou a
mira contra os artistas. Disparou insultos contra Chico Buarque, Caetano
Veloso, Anitta, Taís Araújo, Ivete Sangalo e outros nomes que ousaram criticar
o capitão.
Para mostrar fidelidade ao chefe, o ex-galã
de “Malhação” também abriu fogo contra a Lei Rouanet. “A mamata acabou”,
repetia, ao defender medidas que sufocaram o principal mecanismo de incentivo à
produção cultural no país.
A conversão à extrema direita deu a Frias o prestígio que
ele não encontrou na carreira de ator. O astro de “Bela, a feia” fez novos
amigos, ganhou seguidores e se elegeu para a Câmara. Teve o triplo de votos do
palhaço Tiririca, seu colega no PL paulista.
Como parlamentar, sua atuação mais notável foi como
roteirista e produtor executivo de “Dark horse”. Agora a PF apura se ele
desviou recursos federais para financiar o filme de propaganda bolsonarista,
cujo orçamento faria inveja a Leni Riefenstahl.
De acordo com a investigação, Frias destinou R$ 2 milhões em
emendas para o Instituto Conhecer Brasil, de Karina Gama. Ela também é
produtora do filme que exalta o ex-presidente. O deputado nega irregularidades
e se diz perseguido pela Justiça e pela imprensa.
O caso desmonta de vez o discurso de Flávio Bolsonaro, que
sempre negou o uso de dinheiro público no filme. A versão já ignorava o fato de
que a fortuna de Daniel Vorcaro, a quem o senador pediu R$ 134 milhões, foi
engordada pelo assalto à previdência de servidores. Ontem o filho de Jair
descreveu a operação da PF como uma “terceira facada”.
O episódio também ajuda a entender por que Frias e seus
asseclas se empenharam tanto em demonizar a Lei Rouanet. O objetivo era
substituir o mecanismo, que impõe regras rígidas de fiscalização e prestação de
contas, pelo faroeste das emendas.

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