O efeito Marçal mostrou como um candidato pode arrastar
os demais para o conflito
Hoje, 15 segundos bem editados viram narrativas
distribuídas milhões de vezes
Os principais candidatos à Presidência estão refugando os
debates eleitorais de 2026. A explicação convencional é simples: quem está bem
colocado nas pesquisas tem pouco a ganhar numa arena em que todos os outros têm
interesse em atacá-lo. Isso sempre foi verdade. Mas talvez tenha se tornado
muito mais verdadeiro depois de 2024.
A eleição para prefeito de São Paulo mostrou de forma
impressionante o que um debate pode se tornar na era das redes sociais. Pablo Marçal
percebeu que sua função já não precisava ser apenas comparar propostas. O
debate podia ser também uma prova de estresse do adversário em público, que
consistia em submetê-lo à pressão, tirá-lo do roteiro e usar sua reação como
demonstração de caráter, equilíbrio ou capacidade. Em suas próprias palavras,
tratava-se de descobrir "quem aguenta o tranco", "quem é de
verdade" e até de "expor o caráter de cada um".
Havia, além disso, outra camada. O programa
não terminava quando as câmeras eram desligadas. Cada insulto, zombaria,
acusação pessoal, provocação ou reação indignada podia virar vídeo curto, meme
e cena destinada a circular durante dias em ambientes digitais. O objetivo não
precisava ser vencer o argumento, mas produzir cortes capazes de apresentar o
adversário como despreparado, desequilibrado ou indigno do cargo e fornecer
matéria-prima para a campanha nas redes sociais.
Uma pesquisa que coordeno analisou 848 falas dos candidatos
nos 11 debates do primeiro turno paulistano. Procurávamos saber quando o
confronto permanecia argumentativo e quando se deteriorava até colapsar.
Encontramos um volume sem precedentes de ataques pessoais, zombarias,
acusações, provocações, tentativas de humilhação e grosserias várias que
degradavam a discussão argumentativa em conflito feroz entre os candidatos.
Além disso, a análise mostrou que o comportamento era
contagioso. Uma provocação produzia resposta hostil, que provocava réplica
ainda mais agressiva. Aos poucos, candidatos interessados em propostas eram
arrastados para o terreno de quem tinha maior interesse em produzir conflito. O
problema não era alguém ocasionalmente se comportar mal, mas um único candidato
poder deteriorar a qualidade do debate dos outros.
No limite, os debates produziram aquilo de que todos se
lembram: cadeirada, expulsões, acusações, insultos e encenações destinadas a
sobreviver ao programa. Mais que confronto entre projetos, foram um teatro de
pirraças, provocações e brigas desmoralizantes. É difícil acreditar que as
campanhas presidenciais de 2026 não tenham aprendido alguma coisa com aquilo.
Para um candidato com 3%, o debate é oportunidade
extraordinária: por algumas horas, ocupa o mesmo palco do favorito e pode criar
uma cena capaz de mudar sua campanha. Para quem tem 30% ou 40%, os ganhos de
visibilidade são pequenos, enquanto o prejuízo de uma frase infeliz, de uma
reação emocional ou de uma provocação bem-sucedida pode ser enorme.
As redes ampliaram brutalmente essa assimetria. Antes, uma
resposta ruim desaparecia com o programa ou sobrevivia na reportagem do dia
seguinte. Hoje, 15 segundos bem editados podem virar narrativas e memes
distribuídos milhões de vezes.
Por isso, é interessante que os candidatos pareçam preferir
entrevistas ao vivo. Num artigo de 2012 sobre entrevistas presidenciais de
2010, argumentei que o jornalista compensava a impossibilidade de
editar o candidato tentando controlar sua fala: interrompia, reiterava
perguntas, tentava encurralá-lo e recusava desvios.
Mas há uma diferença decisiva. O jornalista pode pressionar
o político, porém não disputa seus votos e atua dentro de uma gramática
profissional previsível. A campanha consegue antecipar assuntos difíceis e
preparar respostas. No debate, cada adversário tem incentivo eleitoral direto
para provocar o pior momento do interlocutor.
A entrevista não se tornou confortável. O debate é que se
tornou comparativamente mais perigoso, não apenas porque basta um candidato
disposto a provocar e insultar para arrastar os demais para um jogo que não
escolheram mas porque a possibilidade de se sair bem já não depende apenas do
próprio desempenho no debate real. Não há como prever o efeito político de um
debate quando o poder de cortar, editar, reenquadrar e viralizar suas cenas
está também nas mãos dos adversários.
Isso não significa, naturalmente, que seja desejável que
candidatos à Presidência deixem de debater. Mas não há como negar que o risco
de participar tenha aumentado consideravelmente nos últimos tempos.
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