Há dez anos, Guterres assumia a secretaria-geral da ONU,
e a vitória de Trump nas eleições dos EUA era improvável
Mundo de hoje é o de Putin, Netanyahu e outros genocidas;
as Nações Unidas acabaram por se resumir a papel defensivo
Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia
Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres
como secretário-geral da ONU. A decisão já
vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de
expectativa.
Num banco a poucos metros de mim, Samantha Power, então
embaixadora dos Estados
Unidos, rascunhava o seu discurso para a ocasião, em que falou de
Timor-Leste e do malogrado diplomata brasileiro Sérgio
Vieira de Mello. Outros representantes falaram da reforma da instituição,
de direitos humanos ou dos objetivos de desenvolvimento do milênio.
Era outro mundo. Poucos dias depois, fui ao
Museu de História Natural da cidade, onde um especialista em estatística
garantia que Hillary Clinton seria eleita presidente dos EUA. Sendo assim,
caberia a ela nomear para a Suprema Corte o substituto (ou substituta) do juiz
conservador Antonin Scalia.
Falava-se da possibilidade de que essa nova composição, mais
progressista, pudesse vir a aplicar uma moratória federal na pena de morte. O
ambiente na cidade era de otimismo. Cinco sedes de campanha de Hillary
distribuíam ingressos para o que imaginavam ser a sua festa de vitória. Tentei
também, por interesse histórico, conseguir bilhetes para a festa de Donald Trump;
mas foi impossível, a própria campanha parecia não acreditar na sua vitória.
Na verdade, não acreditei. Como europeísta, tinha vivido a
fundo a história do referendo do brexit e da surpresa da vitória de última
hora, no fio da navalha, da opção de saída da União Europeia, que então todos
julgavam impossível. A partir daí, a minha atitude perante a história da nossa
última década foi sempre de "otimismo trágico": a cada passo
esperando o pior e tentando dele extrair algum sentido.
Quer isso dizer que houve ali uma bifurcação na história. O
planeta para que foi eleito António Guterres, e no qual ele teria sido um
extraordinário secretário-geral, não é o mundo que aconteceu na prática. Este é
o mundo de Vladimir
Putin, Binyamin
Netanyahu e outros genocidas. As Nações Unidas acabaram por se resumir a um
papel defensivo.
E agora? A comparação com outros ciclos históricos sugere-me
que o pior ainda está para vir. Afinal, estamos ainda nos anos 20. É nos anos
30 que as piores tragédias acontecem.
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