Eleitorado só tomou conhecimento de que o vice-líder nas
pesquisas no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois
A Polícia
Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR)
não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de
divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André
Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel
Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes
da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair
Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo,
só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no
primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?
Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e
o colega Alexandre
de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o
ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na
disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores
brasileiros disseram à Quaest que
a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto.
Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29%
levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.
Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas.
Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept
divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5
milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a
cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e
operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio
Castro (PL-RJ) são exemplos.
Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias
Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do
procurador-geral da República, Paulo
Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do
presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos
derivados do escândalo do INSS por
suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo
isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é
investigado.
A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O
primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os
candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado,
está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado
das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o
financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da
República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a
um mecenas.
A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser
ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as
informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador,
deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que
afetam o voto também é forma de atacar a democracia.
Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a
pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência
do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que
quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O
momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o
presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na
noite de anteontem.
Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e
ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser
“terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada
igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e
Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à
PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3
bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master,
revelaram Andréia
Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e
no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark
horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo
Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos,
atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.
Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de
Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a
seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de
Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13
ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e
celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a
provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais
colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.
Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber
da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a
sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece.
Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir,
dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita
brasileira.

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