Outra vez a nação está atolada no lodaçal dos malfeitos. O
escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar. O envolvimento de juízes,
procuradores, senadores, deputados, ministros, burocratas e governadores ganha
contornos mais nítidos. A sensação é de que meio mundo se locupletou. Daniel
Vorcaro é um astro. Ninguém conseguiu tanto. Nenhum escândalo neste século
envolveu tanto dinheiro e tantas autoridades públicas. A OAB e o presidente da
República pedem que todas as investigações se tornem públicas e que cesse a
quebra seletiva de sigilo, como a promovida pelo ministro André Mendonça. O
presidente do STF, ministro Fachin, tem diante de si um desafio que jamais
imaginou.
O escândalo do Banco Master tem muitos
efeitos, nem todos ainda claros. Um desses efeitos, decorrente dos últimos
acontecimentos, é que a disputa eleitoral saiu da campanha, das ruas e das
mídias e ganhou um novo locus. Agora, por incrível que pareça, o
teatro é o STF. E cada personagem desse teatro age em função de seus
interesses: pessoais e eleitorais, de poder e do vil metal. É uma consequência
clara do crescente protagonismo da Alta Corte no processo político.
A divulgação do relatório de investigação da Polícia Federal
sobre os telefonemas de Vorcaro mostrou o ministro Alexandre de Moraes como
conselheiro do malfeitor. As intenções do ministro André Mendonça, relator do
processo, parecem ser duas (podem existir outras): a primeira, contribuir para
a eleição de seu candidato, Flávio Bolsonaro, e para o fortalecimento da
extrema direita no Senado; a segunda, contribuir para anular o processo que
condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF, e propiciar o
impeachment de seu “inimigo” na Corte.
Por sua vez, a reação de Moraes, pego em flagrante como
conselheiro do malfeitor, parece visar à nulidade do processo do Banco Master,
para que ele se salve das penalidades. Vorcaro não vai deixar de agradecer,
assim como Ibaneis, Ciro Nogueira, Jaques Wagner e os demais citados nas
investigações em curso. Reza a lenda que boa parte dos ministros do STF está
torcendo para que isso aconteça; pelo menos cinco já foram citados.
Se um dos efeitos do escândalo do Banco Master foi criar uma
nova arena de disputa eleitoral, outro foi aumentar a despolitização. Não se
discutem propostas; no máximo, promessas, muitas de caráter populista.
As questões estratégicas do desenvolvimento do país caem no
esquecimento. Se já não estavam presentes na campanha eleitoral, agora menos
ainda.
Praticamente ninguém fala do ajuste das contas públicas e,
se o faz, é de forma genérica e pueril. Sem esse ajuste, estaremos condenados a
um crescimento econômico medíocre.
Sobre a educação de qualidade para todas e todos paira um
silêncio criminoso. Nos últimos resultados do Programa Internacional de
Avaliação dos Alunos (PISA), recentemente publicados, o Brasil mantém o 67º
lugar, na mesma posição do Líbano. Ficou na 71ª posição em matemática e na 52ª
em leitura. Em ciências, manteve o 67º lugar, atrás do Uruguai, do Chile, do
México, da Costa Rica, do Peru e da Colômbia. Com a educação lastimável que
temos, não haverá futuro na sociedade do conhecimento que se ergue diante de
nós.
E, finalmente, ninguém se pronuncia sobre a crise ecológica
que vivemos nem sobre as mudanças climáticas que nos ameaçam.
Um dia desses, a TV do Senado me entrevistou a respeito das
propostas para o próximo presidente sobre a “questão ambiental”. Arrependo-me
de não ter começado dizendo que não existe essa questão; o que existe é uma
questão civilizacional. Ou mudamos nossa forma de produzir e nosso padrão de
consumo, ou as aquisições civilizacionais podem ir para as calendas gregas.
Caminhamos para um desastre que os reacionários negam e a população, incluindo
os políticos, ignora.
Desculpem-me a conclusão: não caminhamos rumo ao futuro;
chafurdamos no lodaçal do presente. Pena. E corremos o risco de retroceder.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II
da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento
Sustentável/UnB (2007/2011).

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