As urnas distribuem poder, mas não corrigem as
instituições
Quando escrevo este artigo, faltam 25 dias para o primeiro
turno da eleição. Para quem tem telhado de vidro, três semanas podem parecer
uma eternidade, sobretudo num ambiente em que revelações constrangedoras surgem
quase diariamente e se incorporam à disputa política. Muita coisa ainda pode
acontecer até o eleitor chegar à urna.
O que chama atenção não é apenas a exposição dos candidatos
presidenciais, mas a dificuldade das instituições para assegurar que o processo
eleitoral transcorra dentro do mínimo de normalidade. A disputa de 2026
apresenta, nesse sentido, duas características que a diferenciam das
anteriores.
A primeira é a entrada explícita da
geopolítica na campanha. O tarifaço de Donald Trump, os movimentos do
bolsonarismo nos EUA e um cenário internacional tumultuado transformaram
questões externas em componentes da disputa doméstica.
A segunda novidade talvez seja ainda mais relevante: o STF
tornou-se questão eleitoral. No 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro afirmou que
quem votar em Lula estará
votando em Alexandre de Moraes. Um ministro do Supremo passou a ser apresentado
como razão para votar ou deixar de votar em determinado candidato à
Presidência. A judicialização da política e a politização da Justiça não são
fenômenos recentes. O que parece novo é o estágio no qual a atuação de
ministros da Corte ingressa diretamente no cálculo eleitoral.
“Chama atenção a dificuldade para assegurar que o
processo transcorra dentro da normalidade”
Surge daí uma situação paradoxal. Decisões destinadas, em
tese, a proteger a ordem institucional podem produzir efeitos políticos
favoráveis justamente aos que se apresentam como adversários do Supremo. Com
provocação, pode-se dizer que Alexandre
de Moraes corre o risco de transformar-se involuntariamente em cabo
eleitoral de Flávio Bolsonaro, porque suas decisões passaram a integrar a
narrativa utilizada pela oposição para mobilizar eleitores.
O problema mais grave está além dos candidatos. As
instituições e seus líderes demonstram dificuldade para processar, dentro de
uma dinâmica constitucional rápida e previsível, crises como as do INSS e do Banco
Master. Há autoridades mencionadas, agentes privados investigados e fatos que
exigem esclarecimento, mas predomina a impressão de lentidão e paralisia.
Cria-se a impressão de que parte do sistema prefere esperar
para ver como fica após a eleição. Questões graves avançam em ritmo de samba-canção
enquanto todos observam as pesquisas e calculam o cenário posterior às urnas. É
uma situação perigosa, porque instituições não deveriam funcionar de acordo com
conveniências eleitorais. Em menos de um mês, o Brasil conhecerá uma nova
composição do Congresso e saberá quais forças disputarão o segundo turno
presidencial.
A correlação política poderá mudar substancialmente. O que
dificilmente acontecerá é a eleição, por si só, resolver a crise institucional.
As urnas distribuem poder e conferem legitimidade aos eleitos, mas não corrigem
instituições que perderam capacidade de funcionar com previsibilidade,
equilíbrio e respeito aos próprios limites. A eleição poderá encerrar uma
campanha. Não encerrará a crise. Talvez seja depois das urnas que o problema
institucional revelará a sua verdadeira dimensão.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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