Qualquer um dos candidatos parece capaz de perceber o
atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar
o País
Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%,
muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o
quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e
bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem
apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das
campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados
para isso.
Qualquer debate sério deve, ou deveria,
partir de alguns dados básicos da economia nacional. Crescimento sustentável só
é possível com razoável taxa de investimentos em meios de produção, como
equipamentos, máquinas e instalações produtivas de bens e serviços. Em outros
emergentes essa taxa é raramente inferior – e com frequência superior – a 18%
do Produto Interno Bruto (PIB). Isso é parte da explicação do vigor econômico,
bem maior do que o brasileiro, observado em vários desses países.
No Brasil, nos dez anos entre 2016 e 2025, o investimento em
meios físicos de produção igualou ou superou a marca de 18% no quarto trimestre
de 2020 (18,33%), no primeiro e no terceiro de 2021 (18,40% e 18,25%) e no
terceiro de 2022 (18,33%). Em 2025, a maior taxa, 17,8%, foi registrada no
primeiro trimestre. Esses números ajudam a entender por que a expansão
econômica brasileira tem sido medíocre há algumas décadas.
Desde o começo do século, o crescimento raramente superou a
taxa anual de 3%. Pior que isso: esteve frequentemente abaixo desse padrão. A
partir de 2015, houve 3% de expansão apenas em 2022. Essa marca havia sido
ultrapassada em 2021 (4,8%) e seria novamente superada em 2023 (3,2%) e 2024
(3,4%).
Na maior parte deste século, a agropecuária tem sido o setor
mais dinâmico, mais produtivo e mais competitivo internacionalmente. Parte da
indústria, aquela mais próxima da atividade rural, participa dessa
competitividade e contribui também, de forma diferenciada, para a geração da
receita cambial e para a acumulação de dólares. Uma capacidade competitiva
especial também é observada em alguns outros segmentos da indústria de
transformação – e um destaque especialmente notável tem sido o do setor aeronáutico.
A enorme dependência em relação à agropecuária torna o
Brasil especialmente vulnerável a acidentes climatológicos e ao protecionismo
praticado em vários países desenvolvidos, como os da União Europeia. O combate
a esse protecionismo é dificultado por fatores políticos, especialmente
importantes no caso da Europa continental.
A articulação de ações do governo e do setor privado tem
conferido alguma eficácia à defesa dos interesses brasileiros no comércio
internacional.
Mas novos obstáculos, baseados em novos argumentos
protecionistas, podem ser impostos a qualquer momento pelos grandes
importadores, até em benefício de países concorrentes do Brasil e com grande
peso no jogo diplomático das principais potências políticas e econômicas. Cada
vez mais é necessária a articulação de visões diplomáticas e comerciais no
desenho e na execução das políticas de atuação no mercado global.
Com suas dificuldades e sua enorme complexidade, o comércio
global pode impor desafios importantes a qualquer governo instalado a partir de
janeiro do próximo ano. Política externa e economia internacional, no entanto,
têm sido assuntos ignorados, ou quase, nos pronunciamentos de candidatos à
Presidência da República. Mesmo com mudança de governo, o comércio exterior
continuará, naturalmente, funcionando com base na experiência e na atuação do
setor empresarial, exceto se a administração recém-instalada cometer alguma
tolice excepcional. Diplomacia e comércio foram assuntos menosprezados – de
fato, praticamente ignorados, até agora – pelos principais candidatos.
Nada de muito estranho, é claro, quando se leva em conta o
peso eleitoral quase nulo desses temas. Não há como ignorar, no entanto, sua
importância para o funcionamento do País e para o bem-estar da população. Falta
checar a percepção desses fatos pelos concorrentes aos mais altos postos da
administração nacional. Um presidente eleito em fase recente, notável por sua
ignorância de vários assuntos dependentes do governo, destacou-se também por
suas estranhas nomeações para postos ligados a temas internacionais. Foi uma
fase tenebrosa para a diplomacia brasileira.
Nenhum dos atuais candidatos, alguns bem-sucedidos em
negócios privados e outros em atividades públicas, parece oferecer risco de
algo desastroso em funções políticas. Qualquer deles, incluído o candidato à
reeleição como presidente, parece capaz de perceber o atoleiro atual da
economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País.
Desemperrar, é claro, sem recorrer a irresponsabilidades, sem causar
desarranjos e sem levar a sério a tese da gastança como indispensável à
prosperidade. Vários petistas, alguns bem-sucedidos em funções oficiais,
mostraram haver superado essa bobagem. Não há por que ressuscitá-la.
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