Às vésperas de eleição no Brasil, Trump escancara
'interesses vitais' na América Latina
Governador da Califórnia sugere que interferência da Casa
Branca na disputa brasileira deve aumentar na reta final
Donald Trump não é de esconder o jogo. Na terça-feira,
admitiu que a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico foram só
pretextos para invadir a Venezuela. “Assinamos o maior acordo de petróleo da
história”, festejou, na Assembleia Geral da ONU. “Foi uma guerra, mas talvez
tenha sido o maior negócio já feito. Ao vencedor, os despojos”, congratulou-se.
O presidente dos Estados Unidos avisou que não vai permitir
“ameaças à América” no Hemisfério Ocidental. “Se necessário, usaremos todo o
nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos EUA”,
informou.
No caso venezuelano, os interesses podem
ser medidos em barris. A operação que derrubou e prendeu Nicolás Maduro abriu
caminho para os americanos assumirem o controle de 21% das reservas do país, o
equivalente a 65 bilhões de barris de petróleo. “Os números são absolutamente
incríveis”, celebrou Trump.
Em sete dias, o Brasil vai às urnas para escolher o próximo
presidente. A disputa é marcada pela interferência explícita da Casa Branca,
que já impôs um tarifaço a exportações, chantageou autoridades com a Lei
Magnitsky e, num ato inédito de hostilidade, cassou o visto da embaixadora
brasileira em Washington.
Os americanos não disfarçam. Querem a vitória da família
que, no passado recente, subordinou a política externa brasileira aos desejos
do próprio Trump. Na ausência do pai, o republicano aposta no filho. O irmão
dele, ex-deputado cassado e foragido no Texas, já se escalou para o cargo de
chanceler do irmão.
De olho nos despojos, a Casa Branca escancarou a ingerência
eleitoral no início de junho. Horas depois de anunciar uma nova sobretaxa de
25% sobre produtos brasileiros, Trump postou uma foto com Flávio Bolsonaro no
Salão Oval. Descreveu o candidato do PL como “um jovem inteligente que ama
muito o seu país”.
O senador já deu pistas de como retribuiria a gentileza. Em
março, declarou que o Brasil seria “a solução para os EUA quebrarem a
dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. Também
atacou o decreto do governo que impôs regras para responsabilizar plataformas
digitais por publicações que envolvam fraudes, apologia à violência, exploração
sexual infantil e nudez sem consentimento. Ao advogar em favor do lobby das big
techs, disse defender a liberdade de expressão.
Depois do discurso na ONU, Trump se reuniu com presidentes
de 14 países da América Latina e do Caribe governados pela direita. Eles
assinaram um comunicado que abre caminho a sanções econômicas e operações
militares na região, a pretexto de combater “organizações narcoterroristas
transnacionais”. O Brasil não foi convidado, mas está na mira do pacote.
Na quarta-feira, o governador da Califórnia, Gavin Newsom,
descreveu a relação da família Bolsonaro com Trump como “obscena”. O democrata
sugeriu que a interferência americana só deve aumentar na reta final da
eleição. “Eu ficaria muito preocupado”, disse ao portal Metrópoles.
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