domingo, 27 de setembro de 2026

TRUMP ESCANCARA 'INTERESSES VITAIS' NA AMÉRICA LATINA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Às vésperas de eleição no Brasil, Trump escancara 'interesses vitais' na América Latina

Governador da Califórnia sugere que interferência da Casa Branca na disputa brasileira deve aumentar na reta final

Donald Trump não é de esconder o jogo. Na terça-feira, admitiu que a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico foram só pretextos para invadir a Venezuela. “Assinamos o maior acordo de petróleo da história”, festejou, na Assembleia Geral da ONU. “Foi uma guerra, mas talvez tenha sido o maior negócio já feito. Ao vencedor, os despojos”, congratulou-se.

O presidente dos Estados Unidos avisou que não vai permitir “ameaças à América” no Hemisfério Ocidental. “Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos EUA”, informou.

No caso venezuelano, os interesses podem ser medidos em barris. A operação que derrubou e prendeu Nicolás Maduro abriu caminho para os americanos assumirem o controle de 21% das reservas do país, o equivalente a 65 bilhões de barris de petróleo. “Os números são absolutamente incríveis”, celebrou Trump.

Em sete dias, o Brasil vai às urnas para escolher o próximo presidente. A disputa é marcada pela interferência explícita da Casa Branca, que já impôs um tarifaço a exportações, chantageou autoridades com a Lei Magnitsky e, num ato inédito de hostilidade, cassou o visto da embaixadora brasileira em Washington.

Os americanos não disfarçam. Querem a vitória da família que, no passado recente, subordinou a política externa brasileira aos desejos do próprio Trump. Na ausência do pai, o republicano aposta no filho. O irmão dele, ex-deputado cassado e foragido no Texas, já se escalou para o cargo de chanceler do irmão.

De olho nos despojos, a Casa Branca escancarou a ingerência eleitoral no início de junho. Horas depois de anunciar uma nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, Trump postou uma foto com Flávio Bolsonaro no Salão Oval. Descreveu o candidato do PL como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”.

O senador já deu pistas de como retribuiria a gentileza. Em março, declarou que o Brasil seria “a solução para os EUA quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. Também atacou o decreto do governo que impôs regras para responsabilizar plataformas digitais por publicações que envolvam fraudes, apologia à violência, exploração sexual infantil e nudez sem consentimento. Ao advogar em favor do lobby das big techs, disse defender a liberdade de expressão.

Depois do discurso na ONU, Trump se reuniu com presidentes de 14 países da América Latina e do Caribe governados pela direita. Eles assinaram um comunicado que abre caminho a sanções econômicas e operações militares na região, a pretexto de combater “organizações narcoterroristas transnacionais”. O Brasil não foi convidado, mas está na mira do pacote.

Na quarta-feira, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, descreveu a relação da família Bolsonaro com Trump como “obscena”. O democrata sugeriu que a interferência americana só deve aumentar na reta final da eleição. “Eu ficaria muito preocupado”, disse ao portal Metrópoles.

 

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