Os problemas do STF não se esgotam no comportamento de
Moraes, mas demandam reforma profunda na instituição
Hoje não passa de um dia perdido no tempo. Mas pode se
tornar uma data histórica, um 15 do 9 nos arquivos nacionais. Tudo depende do
que acontecer no Supremo Tribunal Federal (STF).
A hipótese inicial é iniciar uma investigação a respeito das
ligações do ministro Alexandre
de Moraes com o Banco Master.
O material já é conhecido, passa por um contrato de R$ 130 milhões entre
Vorcaro e a família Moraes e mais de 50 mensagens trocadas pelo banqueiro com o
ministro às vésperas da prisão.
Outros ministros, como Dias Tofolli, também estão
envolvidos. Mas o pedido de investigação é específico sobre Moraes. E há outro
sobre André
Mendonça.
Podemos esperar muita confusão, troca de
acusações, manobras dispersivas, dessas que eletrizam a imprensa, mas não levam
a lugar algum. Se acontecer alguma coisa hoje, será apenas um começo. Os
problemas do STF não se esgotam no comportamento de Moraes, mas demandam uma
reforma profunda na instituição.
Pelo menos dois problemas precisam ser resolvidos. Um deles
é a politização exacerbada da Corte. Os candidatos, em caso de vitória, já
contam com a possibilidade de indicar quatro amigos fiéis nos próximos quatro
anos e, com isso, asseguram a hegemonia sobre a Corte, matando a demora aos
poucos. O que esperamos deles é uma discussão séria sobre o mecanismo de
indicação de ministros.
O outro problema da Corte, bem diagnosticado por um jornal
alemão, é a cobiça. É o desejo de ampliar a economia pessoal por meio dos
ganhos familiares, que, legalmente, podem advogar junto ao STF. Entram nesse
pacote as viagens internacionais patrocinadas por empresas milionárias com
interesses em processos em julgamento.
A Constituição define as condições de escolha de um
ministro. Nem sempre foram levadas em conta por um Senado relapso. Se tudo se
encerrar apenas com uma investigação sobre Moraes, o serviço estará incompleto.
Quando surgiram as denúncias, cheguei a defender o fim do
Supremo tal como existe hoje. Para variar, apanhei, e houve gente que defendia
até a prisão para uma proposta tão audaciosa.
Mas a denúncia foi esquecida e, felizmente, também se
esqueceram de mim. Com a nova revelação das mensagens, aconteceu o que meu
amigo Marinho Calestino chamava “a volta do retorno”.
De novo, se deram conta da gravidade do problema. Mesmo
Tofolli, que andava meio escondido, voltou à cena, pois a polícia desconfia de
que guarda R$ 34 milhões nas Ilhas Virgens, fruto de uma negociação com
Vorcaro. Quando a PF fez um relatório sobre Tofolli, o documento foi
classificado como lixo pelos ministros. Apenas tiraram a relatoria do caso
Master das mãos dele, que continuam livres para sentenças estapafúrdias em
benefício de grandes empresas.
Hoje, portanto, é um dia em que podemos começar a limpar
tudo o que varremos para debaixo do tapete. A opinião pública nacional foi
despertada. A repercussão nos jornais estrangeiros também não é nada favorável
à imagem do Brasil.
Aparentemente, estamos diante de um processo irreversível.
Não subestimo a capacidade nacional de empurrar com a barriga. Mas os ventos
internacionais soprando para a extrema direita nos convidam a cuidar da nossa
democracia, antes que seja tarde demais.
Artigo publicado no jornal O Globo em 15 / 09 / 2026

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