O ministro Fachin exerceu os poderes da presidência do
STF, começou a organizar o tumulto entre ministros e diretor da PF volta ao
cargo
No dia de ontem o país viveu como se estivesse num
acelerador de imagens. Ao fim, ele trouxe uma ponta de esperança de saída do
tumulto vivido nos últimos tempos. O ponto mais importante foi a série de
decisões tomadas pelo ministro Luiz Edson
Fachin, distribuindo perdas e danos aos contendores, mas reestabelecendo o
papel da presidência do Supremo Tribunal Federal. Ele havia errado na véspera
quando deu 72 horas para o ministro André
Mendonça explicar sua decisão de afastar o diretor-geral da Polícia
Federal. O Brasil não tinha esse tempo.
De manhã o ministro Flávio Dino cassou
a decisão da véspera de Mendonça e, portanto, reintegrou Andrei Passos
Rodrigues na direção-geral da Polícia Federal. Isso foi o empurrão que encurtou
o tempo. Dino fixou um argumento: havia um perigo de dano irreversível com o
afastamento.
E de fato havia. Vivemos o mês dos meses.
Faltam 25 dias para o primeiro turno. As decisões de André Mendonça foram
usadas pública e intensamente pela campanha de Flávio
Bolsonaro para animar a militância bolsonarista, para agregar o
eleitorado evangélico em torno do ministro “ungido”, como disseram os pastores
de comício.
Pior, a Polícia Federal ficou paralisada. Claro que o
trabalho da PF é descentralizado, cada presidente de inquérito pode continuar a
sua investigação independente do diretor-geral. Mas é que foi uma bomba
paralisante. Delegados se perguntavam se podiam continuar o que estavam
fazendo, se seriam alvo de alguma ação. A diretoria de inteligência foi
proibida de fazer relatórios de inteligência. O trabalho parou na PF exatamente
quando muitas decisões estavam sendo tomadas.
Os próximos dias e semanas serão intensos na Polícia Federal
porque há ações a serem implementadas em áreas em que o órgão tem autonomia, há
decisões a serem cumpridas de outros ministros, que não André Mendonça, e há o
inquérito-mãe do caso Master a ser concluído.
De tarde, Fachin cassou a liminar de Mendonça, derrubou por
consequência a de Dino e criticou os dois por sua guerra de decisões
horizontais que trazem tumulto processual. Andrei voltou ao cargo, agora
referendado pela presidência do STF.
Em seguida, Fachin tirou de Alexandre
de Moraes a relatoria do Inquérito das Fake News.
Os dois perderam, Moraes e Mendonça, mas a perda maior foi
para Moraes. Ele ficará com o estoque, mas todo o fluxo, ou seja, as novas
ações irão direto para a presidência. É o início do fim desse inquérito que
teve uma vida de altos e baixos. Começou errado, criado de ofício pelo então
presidente do STF Dias Toffoli. Tornou-se importante na luta contra a
conspiração autoritária e foi perdendo o objeto. Acaba em boa hora.
A semana que vem já tem um dia marcado no calendário. No dia
15 haverá a sessão convocada por Fachin para deliberar sobre esse momento
estranho, em sessão plenária extraordinária e presencial. O objetivo será
julgar a validade do relatório da Polícia Federal feito a pedido do ministro
André Mendonça contra Alexandre de Moraes, e a Corte vai decidir se aceitará a
decisão de Mendonça de abrir uma investigação contra Moraes. Depois será
preciso decidir sobre a acusação de Moraes a Mendonça de invadir prerrogativas
da Polícia Federal e direcionar politicamente sua relatoria.
Falta a Fachin uma decisão: ele vai tirar também a relatoria
dos casos Master e INSS do
ministro André Mendonça? Pela sequência de ações que Mendonça tomou, pelo uso
das suas decisões como parte da campanha da extrema direita, pela falta de
confiança, agora agravada, na isenção dessa relatoria, o ideal seria que ele a
perdesse.
O Brasil vive o capítulo mais agudo da sua polarização
política. Não deveria ter atingido a Suprema Corte, mas já atingiu. Moraes é
criticado pela direita pelos seus acertos, o da condução do processo contra os
golpistas de 8 de janeiro, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, seus
generais, almirante, coroneis, e asseclas por atentarem contra o estado
democrático de direito, nosso bem maior. E Alexandre é criticado pelo resto do
país pelo seu maior erro: ter permitido um contrato entre o escritório de sua
família e o corruptor Daniel
Vorcaro. Mendonça foi atingido pela dúvida sobre a isenção no exercício da
sua elevada função pública. A sessão será pública como recomendaram os
ex-ministros da Corte e como deve ser numa democracia.
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