O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver.
Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da
oposição
O novo mandato do presidente Lula,
na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade
financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os
gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está
às voltas com a fuga de Flávio
Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações
desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso
nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo
não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas
próprias prioridades. A economia é uma delas.
A ordem de Alexandre
de Moraes de entrega dos passaportes foi pedida pela Polícia
Federal. Está sendo usada como pretexto para sustentar a teoria da
perseguição política. Caiu como uma luva em todo o enredo dos Bolsonaro para
justificar a fuga. O derrotado sabe que são muito sólidos os indícios contra
ele nos dois inquéritos, principalmente no que investiga a sua relação, que
pode ser de sociedade, com o enroladíssimo Willer Tomaz.
A fuga de Flávio Bolsonaro é um problema do bolsonarismo e
da direita. Há muitas questões para o governo resolver, a mais imediata é o que
fazer em relação à economia. Há dúvidas razoáveis sobre as questões fiscais. Só
o subsídio ao diesel, que foi agora renovado, já custou mais de R$ 50 bilhões
aos cofres públicos. Em algum momento precisará ser retirado. Foi mantido
porque o governo acreditava em um cenário de guerra mais curta. A retirada vai
elevar a inflação. Portanto é preciso construir uma estratégia de saída lenta
desse gasto. Ele tem sido coberto pelo imposto de exportação, mas é uma
distorção na economia.
Os operadores do mercado financeiro apostaram alto no
cenário em que Flávio Bolsonaro ganharia eleição. Foram tão altas as posições,
que chegaram a ser advertidos de que teriam que se preparar para as chamadas de
margem. Ninguém se preparou. O mercado entrou comprado e sem hedge num cenário
que não se concretizou. A vitória de Lula levou à reorganização completa do
portfólio e isso provocou a grande turbulência de segunda-feira. O Banco
Central entrou fazendo um leilão já programado, e o Tesouro teve que recomprar
títulos.
Há indicadores alarmantes. Para o horizonte relevante da
política monetária houve um acréscimo de 400 pontos de juros. Ou seja, a aposta
é que se o governo não fizer o ajuste das suas contas, o Banco Central elevará
os juros. E esse volume de pontos significa que o mercado está precificando a
Selic a 17%.
Algumas pessoas do governo ainda não entenderam o risco que
está em jogo. O ministro das Relações Institucionais, José
Guimarães disse que “esse assunto (ajuste fiscal) não foi discutido, nem
está sendo discutido”. Essa declaração aumenta a incerteza, que o ministro Dario
Durigan tinha tentado diminuir quando afirmou que o governo iria mirar o
centro da meta fiscal e não o piso, o que significaria elevar o superavit
primário. Depois, Guimarães postou nas redes sociais que o governo “vai
trabalhar com o Congresso para manter as contas equilibradas”.
As previsões para o ano que vem estão sendo revistas pelos
economistas de bancos ouvidos pelo Boletim Focus. Deve haver uma mudança forte
nos próximos boletins. Há quem esteja revisando inflação em mais um ponto
percentual acima do que estava, e revendo para baixo o crescimento do PIB. A
corrida de promessas foi muito grande durante o período eleitoral. O mercado
achava que o vencedor seria Flávio Bolsonaro e que ele faria um estelionato
eleitoral. Com Lula vitorioso sabe-se que esses gastos serão mesmo realizados.
Mas quanto, quando, de que forma e com que compensações, não se sabe. Neste
momento o presidente está ouvindo propostas de ajustes, enquanto forma-se um
coro para dizer que não precisa fazer nada. Lula deveria ouvir quem acha que o
ajuste precisa ser feito.
A direita agora procura um novo líder, depois que Flávio
Bolsonaro fugiu do país. Como não há espaço vago na política, o governador Tarcísio
de Freitas fez um vídeo em que agradeceu os 60 milhões de votos, disse que
a “eleição passou” e que o projeto continua.
O governo precisa evitar que haja uma crise econômica por
imperícia ou erro de diagnóstico. Foi bonita a festa da vitória. Mas quem
entende de economia saiu da festa mais cedo porque sabe que há problemas a
resolver.

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