No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições,
revelações e fatos mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem
dano à própria imagem
O resultado da eleição de 4 de outubro não foi uma surpresa.
Ele já se anunciava há tempos, desde a eleição do candidato do PT à Presidência
em 2002. Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato, não
disfarçou sua enorme e genuína emoção no momento da passagem da faixa
presidencial a Lula.
FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o
significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como
presidente.
Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele
chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano
a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado
português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de
setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um
povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.
O resultado desta eleição, de vários modos,
expressa essa tradição, em que o próprio povo com facilidade pode ser
manipulado para satisfazer ambições de poder de terceiros que são ambições de
riqueza pessoal e de família. No Brasil destes dias e meses anteriores às
eleições, revelações e fatos, política e moralmente anômalos, mostraram que é
possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem.
Fernando Henrique Cardoso, homem democrático e de esquerda,
porém, compreendia claramente que a eleição de Lula quebrava a tradição da
ausência do povo na política.
A eleição mostrou que o PT e os petistas compreenderam mal o
processo político brasileiro e nossa realidade social. E compreenderam mal seu
próprio protagonismo político.
Bastava ter observado as mudanças sociais, laborais e
políticas na própria região de origem do PT, a região do chamado ABC, em São
Paulo. A ascensão do PT coincidiu com o fato de que seis dos sete municípios da
chamada região industrial tornaram-se petistas. Hoje, apenas um o é.
Os municípios em que estava instalada a chamada grande
indústria, tecnologicamente mais desenvolvida e pagadora de grandes salários
pelo trabalho altamente qualificado que empregava, criou uma classe operária
rica.
O ABC tornou-se uma região de classe média, identificada com
o ideal de ascensão social. Manifestações de racismo e nazismo surgiram na
geração dos filhos dos operários que ouviam e aplaudiam os discursos de Lula no
Estádio da Vila Euclides.
O cineasta Carlos Reichenbach lançou em 2003 o filme
“Garotas do ABC”, inspirado em fatos reais, rodado numa tecelagem desativada,
que mostra essa metamorfose social radical, a guinada para a direita. As
classes sociais não são estruturas rígidas e estamentais fixas.
A eficácia política da classe operária persiste enquanto
existem fatores e memória das lutas sociais, que são lutas de crítica e, no
fundo, de aperfeiçoamento do capitalismo. Isso não elimina as contradições
sociais que alimentam uma visão de esquerda do mundo.
O mundo do trabalhador não é um mundo de necessidades
econômicas, simplesmente. Lula encampou uma visão economicista da realidade
operária, a dos militantes, embora ele próprio intuísse e bem que o mundo
operário não é só isso nem principalmente isso.
Há bem mais de cem anos, o capitalismo transformou o
trabalho numa realidade nova, a do trabalho social e abstrato, criador de
riqueza capitalista e não apenas de lucros. O capitalismo do mero lucro é o
capitalismo do prejuízo. Lula é filho do novo proletariado, o do sindicalismo
da mesa de negociação.
A reestruturação produtiva transformou o próprio trabalho.
Se Lula quisesse voltar para a indústria, descobriria que sua profissão não
existe mais. Computadores e máquinas fazem o mesmo trabalho e melhor.
Os fatores da consciência social de reivindicação do
reconhecimento de direitos não terminou por isso. São outros. Ter filé-mignon à
mesa no almoço e no jantar não significa que a classe trabalhadora foi saciada.
Hoje os trabalhadores na roça e na cidade têm necessidades
de que nem mesmo são conscientes. São mais amplos e em maior número. Henri
Lefebvre e Agnes Heller assinalam que surgiram o que chamam de necessidades
radicais, as que só podem ser saciadas com transformações sociais.
As esquerdas, nesse cenário, são cogestoras do
neocapitalismo da nova concepção de trabalho. A vitória da direita na eleição
de 4 de outubro não significa nem derrota nem fim das esquerdas. A direita
acaba de se transformar em vidraça em face do que ela própria produziu com suas
anomalias ideológicas. Está devolvendo às esquerdas a função política de pedra
de bodoque das pressões e reivindicações sociais: esquerdas desafiadas a
retornar aos movimentos sociais e a redefinir sua relação com o Estado.

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