Carta golpista é rechaçada pelos próprios aliados, e
episódio revela oposição mais madura e democrática
Ao fugir do país de forma vergonhosa e sorrateira depois de
perder a eleição no último domingo, o senador Flávio
Bolsonaro (PL) desrespeitou não apenas a ordem judicial para entregar seus
passaportes, mas o voto dos mais de 59 milhões que o escolheram na urna. Ao
publicar, na chegada ao autoproclamado “exílio” nos Estados Unidos,
uma carta contestando o resultado da eleição e se proclamando “presidente
eleito” do Brasil (ou “líder”, numa versão corrigida), deu prova não apenas de
desconexão absoluta da realidade, mas do mesmo DNA golpista que levou à cadeia
seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tramar uma insurreição
depois de perder a eleição de 2022.
As instituições brasileiras voltaram a dar
demonstração de força quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
ministro Kassio Nunes Marques, confirmou o resultado das urnas. O próprio
partido de Flávio, o PL, reconheceu a derrota, bem como União Brasil, PP e
legendas de sua coalizão. Foram declarações oportunas, mas felizmente nem
teriam sido necessárias. Desta vez, não há multidões acampadas diante de
quartéis, nem uma conspiração em curso. A carta de Flávio, em cuja primeira
versão até o nome e o brasão da República estavam errados, caiu no ridículo.
Sua atitude foi rechaçada pelos próprios aliados, perplexos
diante da mistura de covardia, prepotência e parvoíce. De modo rude, o pastor
Silas Malafaia classificou os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos”. “Faz
carta, fala bobagem depois corrige”, disse a seguidores. Com sensatez, o
governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tentou se afastar do
bolsonarismo: “O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de
uma oposição forte, capaz de exercer seu papel”.
Em sua carta, Flávio deixou claro que não está à altura de
liderar essa oposição. No texto, ele tem o desplante de se comparar a
lideranças históricas levadas ao exílio por necessidade. “Charles de Gaulle
liderou a França a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy”,
escreveu. “José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de
Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o
país por enfrentar a ditadura chavista.”
Contra nenhum desses personagens, contudo, havia acusações
remotamente próximas às que pesam contra Flávio. Ele é investigado em dois
inquéritos no Supremo. O primeiro apura o destino do dinheiro que pediu a
Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da História brasileira,
alegadamente para financiar um filme sobre seu pai. O segundo, aquele que levou
a Polícia Federal a pedir recolhimento de seus passaportes, deslinda seu
envolvimento no esquema de lavagem de R$ 5 bilhões em dinheiro de apostas que
levou ao pedido de prisão contra seu amigo Willer Tomaz, advogado foragido na
mesma Miami onde
Flávio pousou com a família.
O roteiro mirabolante de seu trajeto até lá — com manobras
de despiste, a declaração mentirosa de que entregaria os passaportes, a
cooperação de aliados do argentino Javier Milei e a promessa de visto do
governo Donald Trump — supõe planejamento prévio. Não apenas havia risco de
fuga, como afirma a ordem judicial; a fuga de fato ocorreu. Para o Brasil, o
melhor a esperar do episódio é que resulte numa oposição mais madura e mais
democrática do que o patético bolsonarismo.

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